segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Milhazes de dólares

E se for medo ? Eu poderia dizer que sim. Eu estou há dois dias devastada pelos meus medos, furiosa por uma possibilidade de falha. Por fim, pergunto-me : e qual é a diferença ? O que me trará realmente a glória ? E o mais importante : o que é a glória ?

Debato-me entre mundos avessos, entre discursos homólogos, vejo-me presa em descrições que nem sempre têm nada a ver com o real sentido daquela dialética. E causa-me até ira. São jogos, são politicagens. São políticas. A mesma política que fez da narrativa algo secundário, da arte algo banalizado e de todos os sentimentos algo fragmentado.

Na realidade, eu apenas gostaria de saber o conceito inicial da criação. Deixe-me ser mais clara. É como o cinema e a pintura. O cinema já foi feito para ser reproduzido, e este é seu conceito inicial. A pintura, não. É algo divino e divinizante, é puro e cruel. É sublime tal como um limão. Ou uma laranja. Então qual será a glória de cada um ?

Eu fico triste em ver « artistas » conversando com conceitos estranhos ao seu universo, ganhando milhazes de dólares por elementos gráficos e esquecendo-se do pictórico. E tornam-se divertidos e fofos, tal como a Sandy, o Faustão e a Xuxa. E o pior é ouvir « eu sou uma artista bem sucedida ».

Apenas três letras para esta frase : W T F.

Este discurso é excelente para um advogado, para um economista e até para um designer que já formula sua criação como algo reprodutível e economicamente viável.

Confesso que esta análise deixou-me doente, com dor de barriga e dor de cabeça. Perdi meu domingo, minha carne apodreceu na bancada e eu perdi a Callas.

Eu realmente não quero convencer-me de que ser artista é ser bem sucedido (R$), pois se este episódio acontecer, será o mesmo que dizer que minha vida foi em vão, que tentar entender milênios de história foi obsoleto, que todo o sentimento do universo não teve narrativa e que eu me resumo em um cheque pré-datado. Eu não admito isso e se ainda existe algo em que eu acredite, é a arte. É o que me resta, é minha redenção.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Parole Parole de Dalida

Todas as mulheres conhecemos as promessas. E bem gostamos delas, algumas deixam repousar sobre o coração e outras já sabem que este vento leva para longe também nossos planos. Eu gosto de ver a brisa passar, de ler palavras de amor, de me recompensar pelo árido mundo. Elas fluem e depois padecem pela mesma causa das quais nasceram. É tudo tão étereo e fugaz. Papo besta, o meu. Mas quando ele vier dizer tudo aquilo novamente, diga apenas Parole Parole Parole. E você sairá de fina e elegante que é, pois ninguém conhece melhor as engrenagens do amor como os italianos e os franceses. E por este motivo eu indico Parole Parole da Dalida. À todas aquelas mulheres que como eu têm medo de ganhar flores. Depois explico o porquê.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Maria Callas - Habanera de Carmen Bizet

Ópera para mim era algo estranho, fora da minha atmosfera. E graças à série Callas e Onassis do GNT, eu pude ter o prazer de conhecer esta arte tão poderosa que localiza-se entre o tempo e o espaço. É poesia cantada, é pintura dançada, é sobretudo, sublime. É por estas e outras razões que ainda não sei descrever, que indico Maria Callas. Dentro do meu empirismo lúdico, fico com Habanera de Carmen Bizet.

Canal: GNT

Horário: Domingos às 23h

Amalia Giacomini - vazio inventado


Hoje fui à Itaipava, aquela da infância distante, do jardim gramado, da piscina-Cazuza, da sinuca-streape-tease, da lareira-pitoresca, da boêmia-Circo Voador. Não da minha, mas de meus pais. Andei bastante e não cabiam as ruas. E sempre sobrava uma e mais uma e mais uma e outra assim. Na verdade, não era Itaivapa, era a rua João Borges na Gávea.

Exposição : Amalia Giacomini – vazio inventado

Galeria : Mercedes Viegas | Arte Contemporânea

Local : Rua João Borges, 86, Gávea, Rio de Janeiro

De 2 a 28 de agosto de 2010

Cheguei à porta da galeria, e não havia placa e nenhuma indicação. Respirei fundo e apertei o interfone. Minha voz tremeu um pouco, galeria sempre representa o medo da rejeição. Seremos bons o suficiente para adentrar aquele espaço? O melhor é não pensar, e entrar logo. Fui apresentada à Mercedes Viegas. Ela deixou-me muito à vontade. E a partir de então, pude fluir.

Olhei as peças e não entendia. Buscava e buscava e não entendia. Resolvi ceder espaço ao tempo. Bem devagar, comecei a sentir remorso, abandono, uma solidão controlada, algo sutil, e até mesmo bom. Como se eu visse alguém partir, deitada, jogada no chão e dali pudesse ver apenas as linhas do assoalho.

Mas depois, não aguentei e sai correndo. As linhas horizontais tornaram-se as linhas do muro. As setas no chão indicavam o caminho, caminho do corpo, corpo este preso, amarrado por pontos certos, ferindo a carne, puxando e esticando, buscando ser jovem novamente.

É aéreo, vejo além. E criam imagens-cores do além, além-ser, além-montanha, além-pensamento. Bem depois do que se poderia seguir, indicando o lugar, este lugar nenhum. Lugar meu, de todos, do meu coração, do meu corpo sem fim no seu espaço sem limites com limites, sem vasão me invadindo, evasivo. Discutindo o meio, a áurea, a alma, fecho com rigor. Deixo para trás meu campo pictórico de um espaço virtual e vou embora. Cerro a janela e fujo. Deito no chão e vejo você partir, sem caminho, sem destino. Adeus!

terça-feira, 24 de agosto de 2010

5x Favela, Agora por nós mesmo


Passei argila no rosto, fui para a cozinha fazer um misto quente, coloquei um grande copo de açai. E sentei no sofá para ver um pouco de tv. Estava começando Starte, um programa bem cultural no canal GNT.

O assunto de hoje era o filme 5X Favela, Agora por nós mesmo, com 5 episódios. O mais pertinente para mim foi a retórica peculiar de Luciana Bezerra que dirigiu o quinto episódio do filme. Ela encantou-me e fez nascer em mim uma vontade delirante de assistir ao filme. A forma como argumentou sobre a questão do filme de favela foi surpreendente. A favela é sim o pano de fundo, e estará sempre dentro dela, pois ela é favelada. E foi lindo ver a forma como ela apresenta esta questão delicada com força incrível.

Nota breve : quero conhecer todos os trabalhos de Luciana Bezerra, já estou fan.

Para saber mais, acesse : http://www.5xfavela.com.br/

Dia 27 de agosto nos cinemas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Estudos do Plano no Parque Lage

Rocinha - cotidiano e arquitetura


Artes plásticas ou fotografia ? Qual é a fronteira obscura que doa título de obra de arte a um objeto ? E quando estas fotografias retratam algo que todos podemos ver com nossos próprios olhos ? Que tipo de predicado poderíamos atrelar ao voyeur quando este torna-se servo e senhor de sua própria obra?

Eu nem mesmo pensava sobre estas indagações ao passar pelas portas suntuosas do Centro Cultural da Justiça Federal no centro do Rio de Janeiro. Eu ainda estava embriagada de Canale, e não esperava de forma alguma ser puxada tão bruscamente para a realidade atordoante e caótica de minha própria cidade.

Exposição : Rocinha – Cotidiano e Arquitetura

Fotografia: Rodrigo Queiroz

Curadoria : Marco Antonio Portela

Local : Centro Cultura Justiça Federal – Rio de Janeiro

De 10 de agosto a 26 de setembro de 2010

Entrei na pequena sala onde estavam as fotografias da exposição da Rocinha, e não sabia qual ver primeiro. Eu queria lambê-las com os olhos. De forma bizarra, eu senti prazer em observar aqueles cortes vertiginosos, em chegar mais perto para compreender, em olhar os monóculos com as pequenas fotos lá no fundo. Era como observar, espiar, desfragmentar a realidade. E hoje, chegar perto destas imagens é algo fugidiço. Acordei tarde e soube do tiroteio em São Conrado. Se podemos ver com nossos próprios olhos aquelas imagens ? Receio que não. Na época em que as fotografias foram feitas, o próprio fotógrafo tinha que pedir permissão para subir o morro. Hoje em dia ? Não há permissão.

Por vezes, recebia a notícia, após horas aguardando a pessoa que o acompanharia, de que aquele dia não seria possível subir. Era servo de sua obra. E insistiu, voltou outras vezes, aguardou, resistiu. Entretanto como captar a essência daquelas pessoas, o espírito, aquilo que não podemos ver a olhos nus, se estas ficavam receosas com a lente do fotógrafo ?

Rodrigo Queiroz resolveu que seria necessário tornar-se parte do lugar, fazer com que todos acostumassem-se com sua presença. E assim fez ao ficar um ano imerso neste projeto. « Eu nunca pedi nada pra ninguém. » disse o fotógrafo referindo-se à espontaneidade de seus personagens e sendo senhor de seu olhar.

Entre subidas e descidas, descobriu o som do lugar, que pode ser ouvido em sala contígua à sala principal. O som tal como a cor é o alívio da alma, a redenção do corpo, o ópio inebriante dos pensamentos.

A Rocinha é mutante, cada dia acorda e dorme de um jeito. E Queiroz conseguiu captar esta energia empregando tratamentos diferentes às fotografias, algumas preto e branco, outras em sépia, muitas com alto nível de saturação, indo de encontro ao pensamento bressoniano de que a fotografia tem fim no seu ato.

E ao final deste árduo trabalho, Rodrigo Queiroz conseguiu atravéz de um plano pictórico caótico declarar a sua visão daquele mundo oculto, daquela cidade autosustentável onde tudo é reaproveitado e transforma-se, até os sentimentos que vão, ao correr do tempo, de indiferença a compreensão, de medo a compaixão. E ficamos ali extasiados com a profundeza do tema, de moças fazendo as unhas, de pessoas vendo televisão, de crianças jogando bola, costureiras, tudo tão normal, tão real retratados em diferentes proporções.

Se Gombrich me permite, farei de suas palavras as minhas :

« Falar com argúcia sobre arte não é difícil, porque as palavras que os críticos usam têm sido empregadas em tantos contextos diferentes que perderam toda a precisão. Mas olhar um quadro com olhos de novidade e aventurar-se numa viagem de descoberta é uma tarefa muito mais difícil, embora também mais compensadora. É incalculável o que se pode trazer de volta de semelhante jornada. »

Com um pouco de inveja, digo que o maior deleite ainda é do próprio fotógrafo. E a exposição foi uma singela degustação. E agora ficamos, pacientes, aguardando o livro que será o grande fruto, para então podermos refazer os passos de Rodrigo Queiroz nessa perigosa e satisfatória jornada pelo cotidiano e arquitetura da Rocinha.


* fotografias cedidas gentilmente por Rodrigo Queiroz.

Tempo esparso

Eu não sei bem em qual tempo vivo, gostaria que alguém me situasse no tempo e espaço. Alguém para fazer-me uma genealogia aceitável, descobrir minha arte e tocar meu espírito. Desse tempo, desse tempo, frui o vento, passa o tempo. Nasce a roda, fica o movimento, assim, guardado entre lençois sujos de tempo esparso.

Vou para a cozinha, selo uma carne, sinto o aroma. Eu já faço isso há décadas. O gelo derrete no copo de wisky e os legumes já estão no ponto. Ups ! Esbarrei no shoyo, derrubei. Bad love’s acontecem de tempo em tempos. Já está na hora de surgir o próximo. O atual, o próximo, o atual. Vertigem. Tenho vertigens. Não sei se é o Renascimento, ou então o Maneirismo. Na verdade é gótico, é cheio de decorações esse amor. Ai, meu Deus ! Não quero ver o mundo através de seus olhos, tenho medo, tenho medo de cair de joelhos e não mais levantar. Um mundo verde, assim tão sacro. Eu não aquentaria, como poderia fugir de suas palavras ? Como poderia pegar o primeiro trem para lugar nenhum ? Já é tempo, já é tempo de descobrir o tempo, este que vai ficando para trás e já posso contar as décadas.

Meu Cícero não me suporta mais, eu repito, eu repito tudo. Não me olhe nos olhos, fiz questão de usar lentes sem anti-reflexo apenas para você não me ver. É embaraçoso, é desconfortável abrir a pele como rasgos em tintas, mesmo para Varejão. Por detrás desta superfície exata, manipulada, há algo úmido e mole.

Preciso que alguém passe o bisturi em mim e descubra o que há detrás, pois eu tenho difilculdade. E é só... vou olhar minha carne no forno.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cristina Canale - arredores e rastros


Subi as escadas vertebrais do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro tropeçando, meu açucar estava baixo e eu começava a não saber onde estava. Subi o segundo lance de escadas e cheguei ao último andar. Foi quando vi escrito « Cristina Canale - arredores e traços ». Olhei ao meu redor, e vi cores, um mar de cores. Então, meus olhos bateram na frase « Não é tanto um exercício de precisão da linha, mas de contenção e expansão de uma energia cromática. » do curador Luiz Camillo Osorio.

Exposição : Cristina Canale - arredores e rastros

Curadoria : Luiz Camillo Osorio

Local : Museu de Arte Moderna Rio de Janeiro

De 1˚ de julho a 15 de agosto de 2010

Resolvi descer as escadas, eu precisava refazer-me. Suprir meu corpo para depois alimentar a alma. Sentei no jardim do museu, pessoas treinavam lutas marciais, outras tocavam música, alguns caminhavam e eu comia um muffin de tomate feito por mim. Fiquei ali vendo o movimento, as palmeiras, a água e a vida. Eu adoro o concreto do museu.

E voltei, pousei meus pés sobre o chão cinza e subi novamente todas aquelas escadas sem fim deparando-me com « Lisérgico », 2002, acrílica, óleo e bastão oleoso sobre tela, técnica muito utilizada pela artista. E balbuciei baixinho « UAU ». Suas cores pulsam em movimentos alucinados e alucinantes. Os quadros são lúdicos, têm uma infantilidade madura, a mesma que sinto em minha mãe.

Gosto da metalinguagem que vi em « Casa da Esquina II » de 2005, quando vi o canto do quadro sem tinta deixando nua, a tela. Nada tem modulação, é um mundo quase sem profundidade, como se a vida estivesse toda rasa, toda à mostra, assim, tão acessível a quem quiser sentí-la e vê-la.

« Mãe e filha II » de 2007, este sou eu e a mamãe no Jardim Botânico. Elas são uma só, mudas e cegas por algum mal que as aflige. Uma protege a outra com a verdade do branco, cor tão usada pela artista e jamais temida. Grandes áreas brancas. Canale me traz coisas boas com suas cores suaves e pontos de potência. É sublime.

« Sangue frio » 1994, acrílica e óleo sobre tela pode ter o título pesado mas não possui estética de asco. Eu faria uma coleção de saias com este quadro. Mulheres suaves e calmas vestindo formas românticas, algo como New Look. Entretanto, de perto, mulheres frias e más. Não más pois matarão, mas porque roubarão seu coração sem pedir permissão e o enterrarão no quintal. E sem culpa. As blusas seriam de « Platane » 1995, óleo sobre tela.

« La chair est triste » 2010, acrílica, óleo e bastão oleoso sobre tela, faz berrar texturas, eu poderia ficar o dia todo olhando esta poltrona amarela. É viva, é positiva.

Eu quero me vestir de Canale e mergulhar em sua tinta, brincar com seus pincéis, ser a pequena « Columbina » 2006. Sair dançando por aí de saia verde-agua, convidada pelo azul profundo fluindo do fundo. E a música fica por conta do vermelho nos sapatinhos e no laranja-avermelhado na pedra, é o jazz, é o azul do blues. Meus pés seguiam o ritmo, meu sangue sentiu o cinza. A sala ficou cheia de ar…

Eu pagaria o que fosse para ter uma camisa com estampa de « Olhando para o Futuro » 2003. Eu quero pular, brincar, é o céu, é o céu ! Sentei no banco bem em frente ao quadro e fiquei. Não queria ir embora, eu poderia dormir aquela noite ali, ficaria com os olhos presos, entretidos, sedados por tantas cores lindas. E a menininha olhava o futuro, e eu ali bem na frente dela. Lembrei de quando eu sonhava acordada no meu quarto azul de cal, imaginando como eu seria quando mulher. O futuro será sempre futuro e eu permanecerei sonhando acordada esperando o fecundo futuro chegar ao sonho sempiterno para me tornar mulher.

Fiquei ali mais um tempo, locupletando-me vagarosamente do máximo que pudesse de Canale.

domingo, 15 de agosto de 2010

Mollica disse...


Há dias recebi este lindo e-mail.
Nada a declarar...

sábado, 7 de agosto de 2010

Goeldi - O encantador das sombras


Cheguei muito cedo à aula de estudos do plano com o professor Ricardo Becker. E resolvi aproveitar a luz enevoada dos jardins do Parque Laje para caminhar um pouco. Eu estava de meia-fina e aquele era dia para calça, nem minha echarpe estava comigo. Olhei as folhas, senti vontade de saber desenhar.

A aula correu bem, novos amigos et tout va bien. Agora era hora de Cícero (quando eu vou para as exposições com meu caderno para divagar e fingir-me crítica de arte). Hoje eu iria para a exposição do Goeldi, indicada pelo meu professor-orientador Pedro Duarte de Andrade. Nada eu tinha ouvido até então sobre este artista. Santa ignorância ! O dia estava chuvoso, chão molhado, céu cinza ; por assim dizer, dia mais perfeito para ver Goeldi, impossível.

Exposição : Goeldi – O encantador das sombras

Curadoria : Lani Goeldi

Local : Centro Cultural Correiros – Rio de Janeiro

De 22 de julho a 05 de setembro de 2010


As palavras de Lani Goeldi encantaram-me :

« A arte foi seu refúgio, tirou a luz das sombras e deu sombras à luz (…) » e a partir delas eu preparei minh’alma para receber a beleza da arte de Goeldi de mente aberta. Suas obras flutuavam com fios de aço como luas sobre o mar das paredes pintadas de azul. As molduras cor de cobre davam esplendor e destaque às gravuras e desenhos. E fui sendo sugada para o universo de Goeldi. « Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro. » Goeldi.

Soa como « Coração denunciador » de Allan Poe, encanta-me como vinho bom. É simples e complexo, tudo ao mesmo tempo. Quando vi o peixe olhar a faca cravada na mesa, aguardando para ser usada no seu sacrifício em « Peixaria » nanquim sobre papel, fique anestesiada. Era a dor do dia a dia, o sofrimento do peixe, o sofrimento de todos nós aguardando pelo golpe da vida afugentar o sopro de vida. Este quadro é seguido por outro homônimo, entretanto a faca já está no pescoço do peixe.

« O que é preciso é criar, dar alguma coisa de si, usar a fantasia e a vontade criadora, para gravar sempre mais em profundidade. » Goeldi. Contemporâneo de Anita Malfatti, Goeldi entendia o drama da cor, principalmente a preta como Mark Rothko. A essencialidade de suas formas trazem um arrebatamento sutil a quem o observa. É quase como não ter um lar. Seus personagens são solitários, tanto quanto um peixe, tanto quanto um pescador, tanto quanto um ladrão em dia de chuva. É preciso ter alma para não morrer. É preciso ter luz para ver, é preciso ter força para enxergar na escuridão. É a imagem do vazio cheio de sentimentos como o momento decisivo de « O ladrão ». Em contraponto, a espera do mal certo, ali, na porta ao lado, temos « O mal ».

Goeldi demonstra sabedoria ao utilizar a cor, o vermelho, por exemplo. Este serve de ponto de atração, indicando a direção do olhar ; ilustrado nas gravuras « Cabeça » e « Rua ». As cores não são aleatórias e nem ornamentais. Fazem parte de um jogo semiológico perfeito entre conceito e linguagem.

Achei muito curioso os cometários serem em sua maioria, ou na totalidade, advindas de escritores e poetas, sua obra seria mais poesia que gravura, mais linguagem progressiva que permanente ?

« Um artista admirável. Das duas tendências principais da xilogravura moderna, a germânica e a anglo-saxônica. Oswald Goeldi segue resolutamente a primeira. Possui essa liberdade luxuosa do desenho em branco e preto, que pode ir da síntese mais rápida à análise mais amorosa. E traz da escola alemã moderna essa fineza de critério com que ela soube conservar na xilogravura contemporânea as qualidades vegetais desse processo de impressão, que do Barroco pra cá tinham sido abandonadas. » Mário de Andrade.

A gravura que mais gostei ? Certamente « Estrada », dirigiria por ela com um carro esporte vermelho, para não destoar da paisagem. Seria tão solitária quanto seus personagens, tão profunda quanto uma bacia de sangue.

Observação interessante : troquei duas palavras com Iara Tupinambá, artista plástica mineira que foi aluna de Goeldi. E sim, travei, fiquei congelada e não consegui perguntar nada. Deve ter sido o ar condicionado…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Anita Malfatti - 120 anos de nascimento


Domingo é o dia perfeito para fazer uma « grasse matinée », acordei quando meu corpo pediu. De qualquer forma não poderia ficar muito na cama, um dia cheio de aventuras estava pela frente. Fiz uma omelete breve, arrumei os cabelos e sai de casa com meu bolo de chocolate com banana na bolsa. Fazia 31˚ e todos iam e vinham da praia. E eu vestida com uniforme de museu : sapatos confortáveis, roupa fresca e echarpe (sempre está frio dentro das galerias), sem esquecer do pequeno caderno Cícero e da caneta preta BIC. Resolvi descobrir o que o CCBB poderia me oferecer neste domingo. Desci na estação Uruguaiana , não havia ninguém nas ruas, o centro da cidade do Rio de Janeiro é lindo, mas suas ruas guardam segredos e eu estava só. Resolvi, então, não andar pelas ruas estreitas e sim pela Rio Branco. Cheguei ao Centro Cultural sã e salva e pude desfrutar de duas lindas exposições.

Exposição : Anita Malfatti – 120 anos de nascimento
Curadoria : Luzia Portinari Greggio
Local : Centro Cultura Banco do Brasil – Rio de Janeiro
31 de julho a 26 de setembro de 2010


Chamou muito a minha atenção uma frase escrita pela curadora Luzia, « mulher sem fortuna e com uma grave deficiência física, numa cidade provinciana e com rígidas regras sociais. ». Ler isto modificou o meu olhar sobre aqueles quadros. O primeira quadro é « O Burrinho Correndo ». O burro parece voar ao invés de correr e as cores e proporções são exatas, tudo isso em um quadro de um palmo. Isto com apenas 10 anos de idade.
Tinha uma atrofia congênita no braço e na mão direita. Ainda bem que não era na esquerda, pois nela esta o lado criativo do cérebro.

O quadro « A Estudante » 1915-1916, óleo sobre tela, brinca com o rox o e o verde. O tom é suave e vivo. O engraçado é que apesar de seus trajes e fundo serem serenos, seu olhar está fixado ao longe e com olheiras. Sua feição é descontente, sua postura está curvada, talvez estivesse cansada de tanto ficar debruçada sobre livros.
Há uma provável influência de Vicent van Gogh em «Ventania » 1915/1917, óleo sobre tela. As pinceladas são circulares, seguindo o movimento do vento, como van Gogh fazia.

« Chanson de Montmartre » 1926, óleo sobre tela, este é delirante. Eu poderia ficar horas ali observando, espiando aquela moça na janela com seu gato de laço no pescoço. Dá para ver sua cama ao fundo, é uma cama de solteiro. Quem seria ela ? E a espera na janela, quem esperaria ?

Em contraponto a toda aquela sutileza, temos « A Chineza » 1921/1922, óleo sobre tela, que é permeado por um mistério. O vermelho Rothko do fundo puxa a atenção empurrando para o colo do espectador aquela chineza que indaga « C’est quoi ? » com uma certa indiferença.

Já em « Noivinho » 1925, óleo sobre tela, poderia dizer que « que gracinha de menino ! ». É um pequeno burguês francês, talvez, com cores de bala e violetas. É doce, é doce.
Em « Medalhão de Flores com borboletas » 1938, óleo sobre tela, eu pude ver um broche de tão encantador e formalmente resolvido e completo.

« Anêmonas », s.d., óleo sobre tela, este daria uma ótima estampa de vestido. « Retrato de Nonê (Oswald de Andrade Filho), 1935, óleo sobre tela, percebo uma clara referência ao estilo de Tarsila do Amaral pela forma de representar a folha e até mesmo as feições de Nonê.

As luzes levavam ao interior de cada um de nós a magia das obras de Anita, as cores nas paredes ajudaram a realçar a magia e até mesmo o cheiro que flutua por entre as pessoas fizeram desta exposição uma maravilha para os sentidos. Apenas não devo esquecer que domingo, não é dia de museu, está sempre muito cheio e alguns não entendem que o silêncio é respeito com a experiência dos outros. Para resolver isto : jazz em fones auriculares, eles vedam o barulho externo. Fica dica !