quinta-feira, 1 de abril de 2010

Word 97

Organizei minha cama, abri o cadeado da minha gaveta e peguei minha garrafa de contreau. Eu já estava com o copo de vidro. Fechei a porta do quarto com cuidado para não fazer barulho. Andei com passos soltos até a recepção, na verdade, eram 6 passos. Puxei uma banqueta, coloquei a garrafa e o copo em cima da mesa. Passei a mão no mousse e comecei a procurar algum programa para escrever. Eu não parava de reclamar comigo mesma, como eu poderia não ter trazido meu notebook ? A internet fechava as 23 horas e eu não teria nada para fazer o resto da noite, e depois do que havia acontecido hoje, bem, eu precisava ficar horas liberando energia. Eu precisava do Word 97.

Abri a garrava com cuidado, observei o rótulo. Aquele vidro amber era tão belo, parecia um grande caramelo. Despejei o liquido no copo transparente, e o liguido também era transparente. Eu não sabia, por tantas vezes eu olha, observo, e percebo tão diferente do que realmente é. Bebi um primeiro gole, senti o gosto alaranjado descer por minha garganta esquentando. A sensação não foi boa, senti-me mais culpada e mais pesada. E ainda não achava o programa para escrever.

Olhei para o moço da recepção e perguntei se ele sabia onde ficava, como abria. Eu nem sei em qual língua falei. Sei que ele levantou-se com bastante boa vontade e veio ajudar-me. Eu não observei muito seu rosto, eu apenas senti o calor de seu corpo quando passou o braço por detrás de mim e olhou bem de perto o monitor. Tinha o cabelo com bastante brilho e castanho. Era um pouco gordinho na cintura e era leve ao andar. Eu não consegui ver mais. Eu queria transar com ele, eu sempre quero ; mesmo que eu não vá. Nem é por mim, é mais uma vingança contra algo que eu ainda não defini.

Lembrete : definir o que me traz este sentimento de vingança.

Ele voltou para sua cadeira atrás do pequeno balcão no canto da sala. Era um apartamento antigo de 4 quartos todos com varanda. Era bem moderno por dentro, e havia sido reaberto há apenas 2 meses. A presença dele evitava que eu escrevesse. Afinal de contas, eu precisava escrever sobre a vida, sobre os primeiros dias na França. Não estava muito interessada em nenhuma distração. Muito mais depois do que havia acontecido hoje. Eu tomava mais um gole do meu Contreau. Eu sentia que ele me olhava. Ele era um ruído na sala.

Bebi mais um gole da bebida e comecei a sentir azia. E nem importava, eu não pararia de beber por uma razão tão pequena. Não era só porque eu estava sendo corroída por dentro que deixaria meu olhar cair. A corrosão geralmente traz o metal por baixo da camada negra de solidão. Escolhi deixar corroer.

O menino chamou-me e disse que ser proibido beber dentro do albergue. Estava nas regras. Ele foi gentil e perguntou se eu havia lido. Quem lê as regras ? eu sei, eu deveria ter lido. De qualquer forma, esta foi a primeira vez a beber dentro de um albergue, a primeira vez a precisar ser corroída. Eu levantei levemente, já um pouco anestesiada pelo alcool ; enchi mais o copo de liguido transparente como água e guardei a garrafa em minha gaveta com pequenino cadeado. Voltei para o computador, olhei bem em seus olhos, então vi, eles eram verdes como os meus. Ou até mais. E eu disse :

- Eu só bebo água – confesso ter sido um pouco cínica, mas do contrário, não seria eu.

Quando chegou o recepcionista que o substituiria para o próximo turno. Ele levantou e começou a falar em espanhol com o outro. Esta lingua complicada tão próxima do português, e eu não compreendo. Talvez eu nem queira. Ele, o nome dele é Bruno, encostou no balcão pelo lado de fora e começou a dizer que queria beber uma cerveja, que não queria ir sozinho, que não coseguia dormir, que havia ficado vendo filme até às 4 horas da manhã do dia anterior. Que, que, que, que. Eu nem mesmo virava o corpo para saber. As vezes, olhava de soslaio e percebia serem para mim aquelas observações. Pouco importava, ele era mais um tentando passar um charme, e sim, a rotatividade ali deveria ser bem alta. Muitas garotas bonitas, todas querendo emoções e histórias para contar na volta para casa. Eu sabia serem iscas aquelas palavras em uma voz engraçada sem cadência. E eu estava escrevendo sobre minha história no Word 97 e não precisava de nenhuma distração desnecessária.

Ele foi embora, o recepcionista pediu para eu desligar o computador. E eu fiquei sozinha no meu quarto escuro e em silêncio. Senti falta do ruído. Ele era o ruído. E agora tudo estava calmo. Como eu queria meu MacBook. Aconcheguei-me na cama. Era tão confortável, o travesseiro tão macio. Fui dormindo e esquecendo, esquecendo e dormindo até não saber separar os dois.

E eu dormi até não poder mais manter os olhos fechados. Era uma sina. E eu precisava curar-me dela. Levantei-me, tomei um banho bem demorado e sai para dar umas voltas por Barcelona ; Barça, como dizem aqui. Fazia um frio agradável, e as pessoas estavam bem agasalhadas e eu contentava-me com um casaco leve. O pesado ia na mão, ou bem aberto para ventilar. Eu começava a entender que estava em Barcelona. E por que sofrer por estar ali ? no dia anterior almadiçoei estar ali.

Penso que durante o sono, deixei todas as dores e mágoas em algum mundo distante, bem longe da minha realidade. Eu andava livre pelas ruas da cidade. Eu estava em silência mesmo com todo aquele som das pessoas falando e de tudo acontecendo em volta. Mas não havia ruído. Eu sentia falta, por alguma razão bem contraditória, do ruído. E resolvi voltar para o albergue mais cedo.

Abri a porta pesada daquele apartamento e vi o ruído ali sentado, rindo e conversando com todos. Aquele quadro indiano na parede da entrada fazia-me entender o nome : Karma Hostel. Eu não sabia se este « Karma » era sexual, energia ou pura perseguição.

Eu fiquei em paz quando o vi. Eu sabia, eu havia voltado somente por ele.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Hors ligne: Troisième

Estou pronta para detonar. E ainda não descobri o que poderia ser « the reasons why ». É necessario saber pelo quê lutar. Seguir no escuro é frustante. E de repente, um amigo. Uma pessoa inesperada dá-me palavras normais em uma frase fácil. « I believe in you », foi o que ele disse. E eu percebi no começo daquela conversa e após assistir “Nobel Son” que eu preciso de adrenalina. Sim, adrenalina. É o tipo de emoção quando não sabemos o que acontecerá. É estar sozinha à noite em uma estação de trem em um país distante, é subir em palco com platéia cheia.

Amo o desconhecido e ignoro, por vezes, o habitual. Sim, é confortável e tranquilizante chegar em casa, preciso de um porto seguro. Mas prefiro ser marinheira, andar de lugar em lugar buscando novos amores e desilusões. Pois nem só de felicidades enchemos nossa alma. As dores fazem parte concreta de quem somos, para ter um olhar profundo é necessário sofrer um pouco.

Olho para os meus três homens, Alexis, Benoit e Bruno. Quem são eles e o que me fez ficar envolvida? E encontro um ponto em comum aos três. Cada um apresentou-me uma possibilidade de conforto emocional. E na verdade, não é o que procuro; mesmo sendo estes sentimentos aparentados por mim. Busco a aventura, e saber se realmente consegui convencer alguém com minhas caras e bocas.

Seria injusto, é claro, dizer que o envolvimento foi quase nulo. Não, de forma alguma. Entretanto, no final percebo que o sexo é o causador de toda a ilusão. Quando o sexo é bom, os corpos se enlaçam de forma perfeita, ambos sabem onde colocar as mãos e onde não morder, fica difícil dizer não. A mente dá lugar ao corpo, as mãos ficam com sede, todo o corpo movimenta-se de forma inescrupulosa e insana. E eu normalmente confudo este tesão ou sexo bensucedido com amor.

Entregar-se não é querer alguém e sim, abdicar de outras tantas coisas. E então, sempre me perguntarei: o sexo é bom o suficiente para eu deixar-me para trás? Este “amor” durará até a pessoa ver que sou tão livre quanto Picasso?

E na verdade, tenho muita sorte; pois nunca ninguém se apaixona por mim a ponto de querer que eu realmente fique. E as vezes que isso aconteceu, bem… não posso dizer não ter acontecido, sinto-me prisioneira e fujo correndo, desapareço cegamente. Querer é uma coisa, acontecer é outra.

terça-feira, 16 de março de 2010

Teceiro Dia



“Caramels, bonbons et chocolats

Par moments, je ne te comprends pas

Merci, pas pour moi

Mais tu peux bien les offrir à une autre

qui aime le vent et le parfum des roses

Moi, les mots tendres enrobés de douceur

se posent sur ma bouche mais jamais sur mon cœur

Une parole encore”

Por Dalida







Sim, estamos no terceiro dia desta viagem. Na verdade, já estou bem distante deste dia. Já estou há dois meses deste dia. E tenho vagas memórias do que realmente aconteceu e de onde eu estive. Minhas emoções correm rapido demais e não fluem como deveriam. Hoje tomei uma banho de mar, ontem tomei um banho de chuva. E agora posso ver melhor tudo o que aconteceu. Sexta-feira, sai com Fábio. É um outro personagem deste meu livro. Ele é incrível. Mas não para mim. Passados estes meses desde a minha chegada a Paris, aprendi muitas coisas. E uma delas e a principal : agora eu quero ouvir e fazer apenas o que quero, não faço mais coisas para agradar ninguém. O tempo do puxa-saquismo acabou e eu irei me descobrir nova e fulgás como sempre fui. Ficava com medo de mostrar o que queria, não voltava atrás e nem esquecia coisas. Libertei-me e deixei todo o mal para trás. O mal era eu mesma, era uma corrente com uma bola na extremidade que me puxava para trás como em « O Motoqueiro Fantasma ».

Não posso mentir, eu me lembro bem do que aconteceu neste terceiro dia. Eu estava feliz mas não estava, exatamente confortável.

Combinamos de sair à noite. Alexis havia me contado sobre um lugar. E duas amigas iriam conosco. Eu não sabia se havia gostado disso. E como eu iria me comportar. De qualquer forma, vamos lá.

Cheguei cedo ao albergue para tomar banho e me arrumar. Ele marcou comigo às oito horas da noite. Eu esperei, esperei. Então, ele ligou e disse que atrasaria um pouco.

Fui para o La Montagne na Rue du Pot de Fer como ele disse. Tomei uma taça de vinho como ele disse. Eu sempre fazia como ele havia ditto. E onde eu estava? E qual eram minhas vontade? Onde eu realmente gostaria de ir? Agora eu vejo, entretanto, naqueles dias, onde eu estava? Aquela realmente não era eu. Ou sera que era?

O vinho acabou, a alegria também. Não gusto de esperar, não gusto de fazer esperarem. A espera é amarga e estraga a comida. Não é justo fazer um pudim esperar por horas fora da geladeira. Ele certamente se desmanchará. E eu era aquela ameixa em cima, eu comecei a escorregar e afundar no meio daquela massa cremosa e sufocante, estremamente doce e enjoativa. De repente, sem pensar, levantei, paguei e marchei de volta ao albergue. Apenas me dei conta quando já estava sentada na banqueta da recepção. Eu balançava meus pézinhos, haviam borboletas selvagens voando de um lado para o outro, vinham na garganta, desciam, e faziam alvoroço. O celular tocou. Sim, ele estava chegando, o meu norte estava chegando. Ah, como eu precisava dele. Eu não sabia o que queria, precisava dele para dizer.

E lá estavam as duas amigas. Uma japonesa. Ela era linda. Cabelos negros e lisos, grossos e fortes. Seu rosto era simétrico, e tinha lábios grossos. Estava vestida inteira de preto e mesmo assim conservava um ar inocente. Era um vestido de saia rodada e trazia na mão um iPhone. Era quase uma noiva pomerana. E eu desejei um abraço naquela figura delicada de voz suave e baixa. A outra era argentina. Não era bonita e nem feia. Tinha o nariz grande, e o lábio inferior cobria boa parte de seus dentes. Os cabelos não eram cacheados e nem mesmo lisos.

Alexis me abraçou, e eu senti meu mundo voltar. Seguimos em direção ao pequeno Monoprix ao lado do albergue na rue Mouffetard. Ele olhava rapidamente os rótulos e eu seguia-o. adorava ver os preços, como eram baratos aqueles queijos tão sonhados aqui no Brasil. Ele pegou um emmental, um camembert e não lembro o outro.

De repente, saio correndo. A padaria estava fechando, contudo ele conseguiu pegar a última baquete. Ele seguia desenfreado, não respirava. Seguimos para o metro Place Monge.

Compramos os bilhetes. E começamos a descer as escadas. Alexis descia de uma forma absurda como sempre. Às vezes, eu achava divertido. Vamos com calma, vamos com calma, eu pensava, por vezes, eu disse. Era inutil. Até que o buquê de minha noiva nipônica caiu no chão. Foi cada pétala para um lado, e ela nervosa olhava às escuras. Começamos a procurar, o chip estava de um lado, a capa, no outro. Enfim, conseguimos remontar o iPhone e ela voltou a ficar serena.

Seguiu viagem no vagão com aquele pequeno pedaço de tecnologia em seus dedos frágeis e românticos. Como sua cabeça era grande! Alexis abraçou-me e comentou achar ridículo essas pessoas que idolatram e amam seus aparatos tecnológicos, iPhones, iPods, iTudo. E olhou para seu velho e arranhado celular.

Olhei com docura, pois era o único jeito de olhá-la, e comentei que era melhor que guardasse o celular para não cair novamente. Ela também me olhou com doçura. Como eu sentia vontade de abraçá-la. Saimos da estação, e Alexis não sabia onde estava e perguntava a pessoas onde seria o tal bar. Ele parecia estúpido e atrapalhado nessa hora. E eu realmente não estava muito encantada com ele. Estava preferindo o papo com Carolina. Ela era envolvente. Não sei porque falávamos de nossas preferências. E a dela não era beber, e nem a minha. Queríamos fumar um. Alexis nem poderia ouvir essas palavras. Uma, porque eu era encantada para ele, outra, que sua cabeça conservadora e restrita não aceitaria. Não digo ser careta quem não fuma. Não é este o ponto. Entretanto seria hipocrisia simplesmente ignorar as coisas do mundo.

Aquela terça-feira era uma homenagem a Django Reinhardt, eu não sei por qual razão já que sua morte foi em maio. Estávamos em Janeiro. De qualquer forma, haviam vários bares e locais fazendo referências a ele. E eu não podia reclamar. Era um gipsy stile maravilhoso e delirante. O sangue parecia corer mais rápido nas veias, e a cabeça confundia-se com os acordes rápidos. Os dedos subiam e corriam pela guitarra e ao mesmo tempo aquele ritmo dançante e relaxante. Era tudo em uma coisa só. Era o prazer.

Chegamos no bar e o quarteto ainda não havia começado. Sentamos em uma mesa lá no fundo. Pedimos uma garrafa de vinho, comemos os queijos e conversamos sobre nada. Todos queriam impressionar. Na verdade, só Alexis queria destacar-se. Não, não, definitivamente não estou querendo atrapalhá-lo. Estou apenas visualizando de forma plástica no momento. Mesmo no presente lugar, eu sentia tudo isso, entretanto, não queria de forma alguma admitir. Seria o fim, seria o ultimato se eu pensasse a verdade. Eu queria ver apenas pôr-do-sóis e nada mais.

E ele exercia alguma mágica sobre mim, os beijos eram românticos, eram quentes. E eu realmente gostava de como ele me olhava. Era louco, insano, incomum e eu sentia-me linda com aqueles olhos verdes flertando comigo. Era como se eu tivesse ali, em minha frente, uma outra pessoa que era eu mesma. Tudo se resumia em uma paixão por mim mesma. A ilusão do outro ser, ser você mesmo. Narcisismo? Talvez, mas sou humana e me permito.

Quando entrou um floreiro. Carregava em seus braços um grande maço de rosas, eram pequenas, grandes, vermelhas, brancas, rosas. Ah, era uma cama de pétalas. Alexis perguntou-lhe em francês o preço. Então, escolheu três rosas. Eu ainda lembro do cheiro. Era o cheiro de Holambra, quando eu caminhava pelos galpões de flores com minha mãe na infância.

Ela trabalhou um tempo com decoração de casamento. E eu sempre ia junto. Amava aquele cheiro de água, de vida. Eu ajudava e ela me pagava. Eu devia ter uns 8 anos. Então, ela deu-me 5 reais. Lembro sim, comprei uma pequena malinha. Dentro dela, havia uma casa inteira em miniatura. Vinha até com os personagens. Achei em um brechó em Pouso Alegre, perto da praça da casa da minha avó.

A rosa maior e vermelha foi dada para mim. E outras duas brancas e menores para Lu e Carolina. Elas trocaram de rosas umas duas vezes, enquanto eu já beijava ardente os lábios de Alexis. Contente e preocupada. Eu não gusto de homens que dão rosas. nem chocolates.

De qualquer forma, encostei as pétalas no meu rosto e senti. Não sabia exatamente o que sentia. Mas sentia.

O quarteto começou a organizar os instrumentos. E começou a música. Eu e Alexis levantamos e fomos para o balcão para ver de perto o movimento. Ele sentou em uma banqueta e eu fiquei na frente, entre suas pernas. Ele enlaçou seus braços em minha e beijava orgulhoso meu pescoço. Eu sempre me sentia um troféu ao seu lado. Eu ainda não havia decidido se isso era mau ou bom. Então, fingi não entender. Até mesmo porque, eu não conhecia ninguém e ninguém me conhecia. Não importava muito. Não tinha o que ganhar nem o que perder.

Joguei-me na melodia e rebolava entre suas cochas. Deixava suas mãos deslizarem pela minha cintura e até subirem perto dos meus seios duros e pequenos. Eu estava ali pois não tinha para onde ir, ele estava ali porque não sabia onde ficar. Eram dois disparetes perdidos e compulsivos. E quando nos achássemos, sim, seria o fim.

Ao lado da mesa onde estávamos havia outra mesa. E nela, um homem com um iMac Pro. Ele favala olhando para a pequena camera na tela. De longe parecia um louco falando sozinho. Neste nosso mundo “moderno” ser louco já ganhou outros significados. Não sei como Machado de Assis reescreveria “O Alienista” agora. Talvez do mesmo jeito, sei lá. Pouco importa.

O que importa foi Alexis metendo-se na frente na camera e interrompendo a conversa. Sim, conversou e descobriu. O homem falava com seu irmão, que mora nos Estados Unidos. Demos boas risadas.

A parede ao lado era toda coberta por espelho. Brincamos de tirar fotografias de nós quarto juntos. Fiz um video também. Tudo muito escuro e usei meu celular. Não dá para ver muita coisa. É a modernidade, as mémorias-lixo, a velocidade.

As meninas foram embora. Fiquei ali com aquele estranho-novo-amor-pseudo-romance. Seguia alegre. O show não havia acabado, voltamos para a mesa. Ele colocou-me no seu colo e começou a instigar-me, provocar-me. Eu não estava excitada, mas resolvi entrar na dança por puro tédio.

Ele deitou-me no banco, e eu levantei-me.

- Arrisque-se, faça algo diferente, vai… - ele disse-me.

Sim, eu achava aquilo careta. Não acho moderna, a exposição. Não acho interessante este tipo de transgressão sem sentido. Sim, ele é um caretão. E digo dando risadas, pois chorar não vou.

Obviamente, a garçonete, mais para garçom, chegou e apartou a palhaçada.

-Obrigada - eu pensei.

Estava acabado o circo. Ficamos mais um pouco, até que ele olhou no relógio. Hora de ir, o metro iria fechar e estávmos longe de casa. Táxi em Paris é extremamente caro. E não estávamos dispostos a pagar o pato.

“Comme d’habitude”, saimos correndo. Descemos as escadas do metro quase surfando. Conseguimos pegar dois metros, mas o terceiro não. Sem problemas, resolvemos ir andando. Não estávamos longe. E foi até divertido. Estava bem frio, mas havíamos bebido e nos divertimos, o que afastou o frio.

No meio do caminho, vi um albergue bem para designer. Fiquei feliz em não tê-lo escolhido. Era em uma avenida meio nada a ver. Prefiro a rue Mouffetard, mesmo sendo muito turistica, não perde seu brilho e nunca perderá.

Chegamos ao albergue. Ele encostou-me na parede e amasou-me mais um pouco. Como eu estava complacente. Eu realmente não sabia onde estava. Certamente dentro de mim mesma, é que não estava. Talvez tivesse ido tirar ferias em algum lugar onde fosse verão..

E sim, perdi de ter ficado com o official de exército americano que dormia na cama ao lado. Ele era aqueles esteriótipos de filme, cabeça raspada, um rosto masculo e corpo forte. “A terrible mistake”. Temos que fazer escolhas, não é mesmo? E eu não estava em mim para poder tomar decisões sábias. Anyway, a noite havia sido muito boa.

E minha cabeça funcionava em francês, ingles e espanhol. E talvez 2 porcento em português. À noite, sempre estava bem cansada pelo esforço mental e pelo frio. No dia seguinte, bem, Alexis havia me convidado para um jantar em sua casa. Provavelmente, eu ainda estava com ele pois, não havia tempo para pensar em dizer sim ou dizer não. E no momento, ele era um belo escape. Chovia muito em Paris, fazia muito frio e eu ficava com muita preguiça de tentar o novo. O novo estava velho e guardado.

E fui deixando-me levar pelas águas mornas de Alexis. Era como um bafinho quente e confortável. Era uma certeza incerta e uma vontade com bem pouca vontade. E como mulher que sou, continuei seguindo Alexis. Flutuando, flutuando, flutuando.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O homem sem braços

Para a solidao, alguns significados. Precisava relaxar, peguei um cigarro na minha carteira Phillip Morris e uma dose de Contreau. Olhei a rua, a varanda era alta, e a temperatura estava amena, boa, o vento passava respeitoso pelo meu rosto. Acendi o cigarro, dei o primeiro trago. Senti o gosto rascante. Como era bom aquele primeiro trago. Tomei um gole da bebida e senti meu corpo relaxar mais e mais. Era a Barcelona amena, diferente e agradável. Eu nao precisava fazer esforço para estar feliz. Estava só, entretanto sentia-me completa. Passavam pessoas lá embaixo, e eu amava vê-las seguir em frente. Quando vi uma família: uma mulher empurrava um carrinho com um bebê e o marido vinha atrás. Ele nao tinha os dois braços. E nas costa, uma pequena mochila infantil. Tomei mais um trago e bebi mais um gole daquele liquido adocicado. Meu pai também ama Contreau. Eu nao gostava até duas semanas. Agora entendo, faz a vida doce, alaranjada, refrescante.
O homem chegueu perto do lixo e começou a tocá-lo com os pés. Procurava, tentava defender sua família. E continuava a chutar os sacos pretos de lixo. Tomei mais um trago. Colocou sua cabeça dentro da caçamba, era esperançoso. Queria comer, queria vestir-se, o que queria? Era amargurante. E o bebê ali. Que futuro tinha? O que significaria futuro para ele? É uma palavra para poucos. É inexistente para muitos. E eu estava tao feliz com minha mochila nova. Ela era toda colorida, cheia de flores.
Que flores haviam na vida daquele homem? E mais uma pessoa havia sido colocada no mundo. Era injusto, era o habitual. Passavam pessoas e nem olhavam. Elas, simplesmente, escolhiam nao ver. E seguiam satisfeitas.
Eu estava alta naquela varanda bonita de um albergue espanhol. Eu nao estava só. Sim, eles estavam sós. Estavam separados de toda beleza do mundo. Estavam a parte. E tinham que preocupar-se a cada segundo, a cada passo.
E a família foi embora. E o homem seguiu, sem braços, nem nada encontrar e sem nada esperar dos dias. Seriam secos como o de hoje, como o de ontem e como o de amanha. E eu seguiria contente, todavia, só até aquele momento. Nao direi mentira. Depois do banho, já terei esquecido a cena e farei parte de todo o resto que escolhe nao ver. Escolhemos nao ver, nao saber. Mas eles estao ali.
Um jovem bonito atravessou a rua e jogou um colchao aparentemente novo perto do lixo. Ele nao precisava daquilo. Devia ter outro melhor em casa.
Terminei meu cigarro, tomei o último gole de Contreau. Entrei no quarto e fechei a porta da varanda. Ela era pesada como a realidade do homem sem braços. Entao, virei as costas para o que tinha visto. E sentia-me culpada por ter comprado a mochila nova. E todos seguem, eu seguirei, e eles também.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Hors ligne: Deuxième

Os sentimentos são melhores quando não são escritos. Depois de escritos viram particula podre, é como me sinto em relação a tudo agora. É quando um gato, de repente te arranha, e te morde. Não é doce. Mas é a realidade tocando com rispidez o meu corpo frágil.

Sinto-me ansiosa e derradeira. Sou derradeira. Não tome muitas intimidades com um gato, pode acabar sendo fatal. Eles são originais, não fingem que não mentem. Enganar, suprimir, frojar, pretender, iludir, mostrar os dentes e as garras crueis. E ao mesmo tempo, distilar um doce olhar verde, ou talvez azul.

O ronronar é macio, cuidado, não fique muito relaxada. Acorde, acorde deste sonho infantil. Ele pode te arranhar de novo. Ouça, ele quase pára de ronronar. Vai acordar a casa inteira. O relógio está berrando para eu dormir. Amanhã tem aula, você precisa dormir. Não pode falta de novo, e o tempo urge. Não era assim que mamãe falava?

Sim, apague a luz. Eu vejo o que está fazendo. Você está indo a direção alguma. Está estremecendo e iludindo-se cada vez mais. É necessário, preciso deste drama, preciso desta dor. A melancolia me fortalece, a cerveja também. No fundo, não é nem drama. É apenas uma vontade de me entregar aos fracassados, aos alienados, aos descontentes, aos frustrados.

Quem diria? Aquela meninha de roupa de quadrinha, meia-calça cortada cheia de cola colorida. Saia de seda e nos pézinhos, um sapatinho boneca. Era verdadeiramente, uma bonequinha.

Eu sou, e não me vejo assim. Eu indico sensações, eu provoco argumentos, eu sou uma desilusão. Foi só para rimar, não sou isso, não.

Quero que o papel acabe, preciso dormir. Não durmo enquanto o papel não acaba.

“Caramels, bonbons et chocolats

Par moments, je ne te comprends pas...

Parole, parole, parole…”

E é a vida por detrás das cortinas, está na hora de abri-las. Preciso ver novamente o sol, preciso verdadeiramente ver o sol.

Deixo-vos dormir, repouse em paz. Guarde para si o melhor de mim. Preciso que alguém entenda o que dou. É minha alma, meu corpo, meu estomago, e de tudo mais um pouco, dá até para fazer um boudin. É claro, somente se vocês quiserem também o meu sangue.

Segundo dia


“De nada adianta ficar-se de fora

A hora do sim é um descuido do não”

Toquinho e Vinicius de Moraes


Acordei cedo, vesti-me bem bonita. Preparei-me para sentir o frio de Paris. Resolvi ir a Champs-elysees para ver as lojas, descobri o charme do lugar. Eu só queria achar a Orange, eu queria poder falar com aquele erro misterioso, aquele sujeito diferente, intrigante. Quem era ele? O que queria de mim? Eu andava alegre, satisfeita. Acordara e fizera uma maquiagem simples e charmosa. O que poderia eu dizer? Eu estava desejosa.

Fui à pé da Rue de Mouffetard até a Rue de Rivoli. Meus dedos doiam de frio e eu não podia segurar minha Nikon D40. Era impossível regular a velocidade, era impossivel pensar em enquadramento. Seguia fotografando com meus olhos. Algumas pessoas corriam, outras turistavam alegres. Vejam, estamos em Paris. Sim, é dificil misturar-se, mas impossivel não é uma palavra francesa.

Subi a Champs-Élysées. Ela não é a Paris que amo. A Paris de ruas estreitas, a Paris de pouca gente, de gente engraçada, de casais de verão, de caras amarradas e de sorrissos largos. Aquela era um Paris de todos, e muito pouco dos franceses, dos “parisien de souche”, uma bendita escassez.

Minha calcinha encomodava muito. Era dificil de alcançá-la, eu portava a calcinha, uma cirola, uma calça jeans, vários casacos, luvas de couro. Sentei para disfarçar e tirar aquela bendita de minha bunda. Foi quando vi um belo garoto de mais belos ainda olhos azuis a pegar um grande anel de ouro no chão. Então, ele perguntou-me se era meu. Truque antigo. Se meu francês fosse melhor, eu lhe perguntaria se ele não havia aprendido nada mais novo, pois aquele era da época de Doisneau, aproximadamente.

Levantei-me preocupada e disse que era casada. Casamento está em sua cabeça. E está sempre na minha. Sempre. Vivo a pensar no casório, penso tanto que assusto os homens, quero tanto e quando alguém quer, eu fujo assustada. Uma coisa é querer, outra coisa é acontecer. Quero casar, outra é casar. Quero morrer, outra é morrer. Quero amar, outra é amar. É a alma humana, não sabemos nem mesmo o que queremos. É uma passado cruel, é um futuro devaneado.

Entrei feliz na Orange naquela rua larga. Comprei um chip da França. Eu agora tinha um número, um código. Eu existia neste país, eu estava aqui de verdade. Mandei uma mensagem a Alexis.

“Bonjour! C’est Ana. J’ai acheté un sim card. Maintenant nous pouvons parler. Bises.”

Eu andava sorrindo, saltitava de frio e emoção. Fotografava furtivamente as fachadas, as pessoas. Queria que tudo entrasse em minha alma. Foi quando avistei uma fachada verde, antiga, clássica, do segundo império, delicados ornamentos, curvas, tão napoleônico quanto os móveis da casa de vocó Judith.

Lembro da pentiadeira. Sentava no banco, os pézinhos não encostavam no chão. Imagina a mulher não existente ainda na minha face, enxergava os perfumes que teria, os pós-de-arroz, os batons e também as lágrimas que um dia derramaria pelos amores impossíveis.

Coloquei meus dedos no puxador gelado, e abri a porta como quem abre uma caixinha de música que fora da avó ja morta. Era uma caixa sagrada, imaculada e cara. Entrei e não me senti completamente estranha, estava relaxada, à vontade, em casa. Postei-me na fila. As pequenas tortinhas sortidas de cores vivas e pastéis sorriam e se divertiam. Estavam dispostas com sabedoria e beleza. Avançava na fila e havia uma senhora atrás de mim. Era requintada, elegante, tão francesa. Ela já sabia o que queria. As pessoas pediam rápido, todos já sabiam. Eu estava perdida. Não sabia o que era bom.

- Tudo é bom – disse a senhora tão delicadamente como os pais que iniciam o paladar dos filhos com queijinhos Babybel, a suavidade materna e preocupada.

Então, vi os macarrons. Li em voz alta o nome de quadro dos sabores, e em dois segundos lá estava eu pagando pelo meu prêmio. Estavam em minhas mãos em um saquinho delicado e de design “arte nouveau”.

Despedi-me do lugar e sabia não ser aquela a última vez. Quando senti o ar frio em meu narizinho, senti também o celular vibra em meu corpo. Subiu-me um arrepio delirante, quase uma zonzeira mas, sádia.

A voz era tão estranha, não havia o costume de ouvi-la. Era a voz com sotaque rascante de Alexis, um inglês afrancesado. Entendi só metade do que disse. Entretanto, ouvi apenas que ligaria novamente mais tarde, às 18 horas.

Continuei andando, entrei na Shephora. A Champs inteira estava em promoção. Passei meus dedos por algumas sombras de um euro cada. Ah, o prazer feminio pode sim custar barato. A fila do caixa é sempre a hora do arrependimento e frustação. Sempre sinto-me como se fizesse algo errado. As vezes, não. E na verdade nunca precisamos do que compramos. Entretanto, a pura verdade é que nossas vidas dependem completamente dessas pequenas coisas.

Homens gostam de mulheres sensuais, homens gostom de nos cheirar, homens gostam do toque suave da seda do vestido, homens gostam da renda branca sobre a pele morena, homem gostam de cabelos sedosos e bem tratados.

E sim, nós gostamos de carros caros, de ternos bem cortados, de cartão de crédito com limite ilimitado. O mundo é vulgar e malicioso, e eu, preciso ser mais e mais. Ou não.

Cartão aceito, conta paga. Lá estava eu na rua novamente com um pequenos saquinhos da Ladurée e outra da Shephora e ainda outro da Orange. E para ser sincera, não estava feliz. Não gosto de Paris no inverno. Eu gosto da liberdade de minha blusinha pequena, dos meus dedos livres e quentes. Eu não me sentia livre.

Sentei em um banco, abri delicadamente o saquinho e degustei os pequeninos macarons. São bons, sim, são bons. E não são a melhor coisa do mundo. “Ça m’enerve”.

Marchei até o albergue. Quando estava quase na porta, Alexis me telefonou e me convidou para encontrà-lo em um café chamado Le Fumoir. Entrei correndo no alberque, subi tropeçando nos degraus da escada estreita. Entrei no meu quarto já tirando os casacos, pequei tudo que precisa e voei para o banheiro. Foi um banho rápido, porém para mim era uma eternidade. Eu queria chegar logo ao encontro, queria saber, queria descobrir.

Vesti-me, fiz maquiagem e fui. Entrei na estação de metro da Place Monge, e havia muitas pessoas. Todos corriam para um lado e para o outro, eu não sabia como chegar ao café, ficava nervosa com medo de chegar lá e ele não estar mais. Medo, medo, medo, angustia, frisson, e mais medo.

Cheguei ao lugar e fui recepcionada por um japonês ou chinês ou sei lá o que. E fui bem mal tratada. Então ele me viu, e veio ao meu encontro. Não gostei muito do que vi. Não poderia dizer que era absurdamente bonito, era simpático, talvez. E ele não estava com vários amigos, era uma moça. Ela era bela, cabelos escuros, uma boca larga com dentes grandes, olhos pouco encantadores, desajeitados e infantis. Sim, muito bela. E eu não gostei. Talvez eu preferisse estar somente com ela. Virginie. Sim, era Virginie.

Eu timidamente começava a falar. Eu não sabia a pauta, o romance, e qual livro, quem eu deveria ser ali, sim, eu não sabia de nada. Arriscava minha vida, arriscava meu pescoço e minha inocência, sim, tudo em um mesmo segundo.

Falamos sobre nada um bom tempo. E contei como havia conhecido Alexis. Foi quando aconteceu o apelido: puppy. Ele havia chegado à minha pequena mesa e se abaixado para falar comigo, e reposou somente a ponta dos dedos sobre a madeira plana. Sim, era um cachorrinho, um puppy.

Falávamos sobre música. Então cantei:

“Quand il me prend dans ses bras

et me parle tout bas

je vois la vie en rose…”

E naquele momento, nascia nossa música. Nem haviamos nos beijado, e já tinhamos apelidos e música. Era irresistivel. Era ultrajante. Era massificador e impossivel de imaginar. Eu estava fora de mim, não era eu. Não havia nada nos olhos de Virginie, eu não percebia nada. Era inutil tentar, ela era seca pode dentro.

E em três segundos, ele olhou fundo nos olhos dela, dentro daquela Virginie que só ele conhecia, ou talvez apenas pensasse conhecer, passou as mãos ao redor de minha cintura e prendeu-me um beijos atrapalhada. Ele não me beijava, ele mostrava a ela o troféu, eu era um tapa de luva de pelica. Mas eu sabia da existência nula de qualquer sentimentos dentro dela. Era como pedra jogada em lago seco, vazio. Era chuva ácida em panela de inox. Ele precisava dizer para si mesmo: eu posso, eu sou capaz, eu sou mais que ela.

Ele não é.

Eu vi, eu percebi. Então por que não me levantei e fui embora. Por que não me disse: Chegaaaaaaaaaaaaaaaaa! e parti? Pois gosto da emenda, gosto desse reggaeton forçado. Sim, permaneci lá e fiz, com prazer, o papel exigido por ele dentro do teatrinho. Eu era um fantoche vistoso e corajoso. Quase uma boneca de louça ou porcelana. Eu iria quebrar, eu deveria ter quebrado. Todavia, se eu quebrar não há livro, não há vida, não há emoção. Nem para mim, nem para vocês. Continuemos.

Após alguns beijos destrambelhados e com pouco prazer, ela decidiu ir embora. E foi. Assim, bem de repente.

Resolvemos jantar ali mesmo. Comemos um delicioso risoto de trufas com vinho tinto. Ele beijava-me, segurava minhas mãos e ali, eu pensei que seria para sempre. Era claro e confortável. O perigo é não sentir o perigo.

Ele propos uma casa de jazz depois do jantar. Então fomos ao Duc de Lombard. A música era incrível, ele não era incrivel. Beijava meu pescoço com voracidade, e tentava viajar sua mão sobre meu corpo por baixo da roupa. Eu tirava, ele retornava. Eu tirava, ele retornava.

O lugar era azul, era tudo azul. Até eu estava azul, por dentro também. Ele pediu duas taças de vinho. Bebi bem devagar, degustei, ouvia a música e pensava o que fazia ali. Era delicioso o jeito que ele encostava os lábios no meu pescoço. Era quente e macio. Suas mãos faziam massagem nos meus ombros e até minha alma relaxava. Eu queria sair correndo dali e fazer amor com ele, transar com ele, trepar. Fiquei ali, parada e calma. Vontadade dá e passa.

Queria ir embora, outra coisa era ir embora. Eu estava presa ali, grudada e completamente costurada àquele homem de casaco de couro curto e feio, barba por fazer, e pouco cabelo. Sua linguá era especial. E ele me fez sentir especial.

E então, o show acabou. Hora de ir embora. Levantamos e fomos. Entramos na estação de metro, descemos apressados as escadas e em poucos minutos lá estava eu novamente na frente do albergue. Beijamos-nos mais e mais e mais e mais. Ele despediu-se e foi embora. Entrei, subi, deitei-me e não vi nada. Eu não estava ali, era imagético, era sonho, era nada.

Dormi silenciosa.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Hors ligne première

Fumo um cigarro de chocolate. Encosto minha cabeça no “clic-clac”, estendo meu corpo no tapete macio, felpudo e negro. Olho para cima e vejo a fumaça doce de meu cigarro acesso. Ela dança para mim, ela me ensina, ela diz o que eu não quero ouvir. É a sensação mágica da vontade mórbida da morte eterna, é a vida, é a mistura. De qualquer forma, me conservo honesta, me conservo ambiental. Invento situações pois não aquento a realidade seca, as imagens reais. Choca-me, tudo. Eu disse: posso sair um pouco. Responderam: não, você precisa saber a verdade. Diga então, eu quero saber. Se é que existe alguma forma verdadeira de expressar atos impuros, pensamentos imperfeitos e ações que queria tanto tomar, mas a realidade avassaladora toma conta de meus atos e não posso me mexer.

O gato sobe na cama, e procura um lugar para se deitar. Olha a luz do computador e nem presta atenção. Ele prefere a sensação de meu pequenino casaco de lã. Ou talvez a cama do “clic-clac”.

Não, não é normal. Meu corpo pede tanto o corpo dele. Entrando e saindo de meu corpinho imaturo, maduro, perfeito, cruo e nu. Entretanto, dentro, é vazio e agradecido. A liberdade entrou novamente pelas minhas narinas e não preciso mais daquele cheiro, e nem daqueles beijos tão falsos, tão derradeiros e que não forma eternos nem mesmo por alguns segundos.

O cigarro de chocolate não faz bem para meu estomago, fico enjoada, como fiquei com tanto excesso de ilusão. Que ilusões puras, que amor contente, que momentos bons e que fim sem graça.