sábado, 21 de agosto de 2010

Tempo esparso

Eu não sei bem em qual tempo vivo, gostaria que alguém me situasse no tempo e espaço. Alguém para fazer-me uma genealogia aceitável, descobrir minha arte e tocar meu espírito. Desse tempo, desse tempo, frui o vento, passa o tempo. Nasce a roda, fica o movimento, assim, guardado entre lençois sujos de tempo esparso.

Vou para a cozinha, selo uma carne, sinto o aroma. Eu já faço isso há décadas. O gelo derrete no copo de wisky e os legumes já estão no ponto. Ups ! Esbarrei no shoyo, derrubei. Bad love’s acontecem de tempo em tempos. Já está na hora de surgir o próximo. O atual, o próximo, o atual. Vertigem. Tenho vertigens. Não sei se é o Renascimento, ou então o Maneirismo. Na verdade é gótico, é cheio de decorações esse amor. Ai, meu Deus ! Não quero ver o mundo através de seus olhos, tenho medo, tenho medo de cair de joelhos e não mais levantar. Um mundo verde, assim tão sacro. Eu não aquentaria, como poderia fugir de suas palavras ? Como poderia pegar o primeiro trem para lugar nenhum ? Já é tempo, já é tempo de descobrir o tempo, este que vai ficando para trás e já posso contar as décadas.

Meu Cícero não me suporta mais, eu repito, eu repito tudo. Não me olhe nos olhos, fiz questão de usar lentes sem anti-reflexo apenas para você não me ver. É embaraçoso, é desconfortável abrir a pele como rasgos em tintas, mesmo para Varejão. Por detrás desta superfície exata, manipulada, há algo úmido e mole.

Preciso que alguém passe o bisturi em mim e descubra o que há detrás, pois eu tenho difilculdade. E é só... vou olhar minha carne no forno.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Cristina Canale - arredores e rastros


Subi as escadas vertebrais do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro tropeçando, meu açucar estava baixo e eu começava a não saber onde estava. Subi o segundo lance de escadas e cheguei ao último andar. Foi quando vi escrito « Cristina Canale - arredores e traços ». Olhei ao meu redor, e vi cores, um mar de cores. Então, meus olhos bateram na frase « Não é tanto um exercício de precisão da linha, mas de contenção e expansão de uma energia cromática. » do curador Luiz Camillo Osorio.

Exposição : Cristina Canale - arredores e rastros

Curadoria : Luiz Camillo Osorio

Local : Museu de Arte Moderna Rio de Janeiro

De 1˚ de julho a 15 de agosto de 2010

Resolvi descer as escadas, eu precisava refazer-me. Suprir meu corpo para depois alimentar a alma. Sentei no jardim do museu, pessoas treinavam lutas marciais, outras tocavam música, alguns caminhavam e eu comia um muffin de tomate feito por mim. Fiquei ali vendo o movimento, as palmeiras, a água e a vida. Eu adoro o concreto do museu.

E voltei, pousei meus pés sobre o chão cinza e subi novamente todas aquelas escadas sem fim deparando-me com « Lisérgico », 2002, acrílica, óleo e bastão oleoso sobre tela, técnica muito utilizada pela artista. E balbuciei baixinho « UAU ». Suas cores pulsam em movimentos alucinados e alucinantes. Os quadros são lúdicos, têm uma infantilidade madura, a mesma que sinto em minha mãe.

Gosto da metalinguagem que vi em « Casa da Esquina II » de 2005, quando vi o canto do quadro sem tinta deixando nua, a tela. Nada tem modulação, é um mundo quase sem profundidade, como se a vida estivesse toda rasa, toda à mostra, assim, tão acessível a quem quiser sentí-la e vê-la.

« Mãe e filha II » de 2007, este sou eu e a mamãe no Jardim Botânico. Elas são uma só, mudas e cegas por algum mal que as aflige. Uma protege a outra com a verdade do branco, cor tão usada pela artista e jamais temida. Grandes áreas brancas. Canale me traz coisas boas com suas cores suaves e pontos de potência. É sublime.

« Sangue frio » 1994, acrílica e óleo sobre tela pode ter o título pesado mas não possui estética de asco. Eu faria uma coleção de saias com este quadro. Mulheres suaves e calmas vestindo formas românticas, algo como New Look. Entretanto, de perto, mulheres frias e más. Não más pois matarão, mas porque roubarão seu coração sem pedir permissão e o enterrarão no quintal. E sem culpa. As blusas seriam de « Platane » 1995, óleo sobre tela.

« La chair est triste » 2010, acrílica, óleo e bastão oleoso sobre tela, faz berrar texturas, eu poderia ficar o dia todo olhando esta poltrona amarela. É viva, é positiva.

Eu quero me vestir de Canale e mergulhar em sua tinta, brincar com seus pincéis, ser a pequena « Columbina » 2006. Sair dançando por aí de saia verde-agua, convidada pelo azul profundo fluindo do fundo. E a música fica por conta do vermelho nos sapatinhos e no laranja-avermelhado na pedra, é o jazz, é o azul do blues. Meus pés seguiam o ritmo, meu sangue sentiu o cinza. A sala ficou cheia de ar…

Eu pagaria o que fosse para ter uma camisa com estampa de « Olhando para o Futuro » 2003. Eu quero pular, brincar, é o céu, é o céu ! Sentei no banco bem em frente ao quadro e fiquei. Não queria ir embora, eu poderia dormir aquela noite ali, ficaria com os olhos presos, entretidos, sedados por tantas cores lindas. E a menininha olhava o futuro, e eu ali bem na frente dela. Lembrei de quando eu sonhava acordada no meu quarto azul de cal, imaginando como eu seria quando mulher. O futuro será sempre futuro e eu permanecerei sonhando acordada esperando o fecundo futuro chegar ao sonho sempiterno para me tornar mulher.

Fiquei ali mais um tempo, locupletando-me vagarosamente do máximo que pudesse de Canale.

domingo, 15 de agosto de 2010

Mollica disse...


Há dias recebi este lindo e-mail.
Nada a declarar...

sábado, 7 de agosto de 2010

Goeldi - O encantador das sombras


Cheguei muito cedo à aula de estudos do plano com o professor Ricardo Becker. E resolvi aproveitar a luz enevoada dos jardins do Parque Laje para caminhar um pouco. Eu estava de meia-fina e aquele era dia para calça, nem minha echarpe estava comigo. Olhei as folhas, senti vontade de saber desenhar.

A aula correu bem, novos amigos et tout va bien. Agora era hora de Cícero (quando eu vou para as exposições com meu caderno para divagar e fingir-me crítica de arte). Hoje eu iria para a exposição do Goeldi, indicada pelo meu professor-orientador Pedro Duarte de Andrade. Nada eu tinha ouvido até então sobre este artista. Santa ignorância ! O dia estava chuvoso, chão molhado, céu cinza ; por assim dizer, dia mais perfeito para ver Goeldi, impossível.

Exposição : Goeldi – O encantador das sombras

Curadoria : Lani Goeldi

Local : Centro Cultural Correiros – Rio de Janeiro

De 22 de julho a 05 de setembro de 2010


As palavras de Lani Goeldi encantaram-me :

« A arte foi seu refúgio, tirou a luz das sombras e deu sombras à luz (…) » e a partir delas eu preparei minh’alma para receber a beleza da arte de Goeldi de mente aberta. Suas obras flutuavam com fios de aço como luas sobre o mar das paredes pintadas de azul. As molduras cor de cobre davam esplendor e destaque às gravuras e desenhos. E fui sendo sugada para o universo de Goeldi. « Cada traço é um pedaço de nervo com a veemência de um coração bárbaro. » Goeldi.

Soa como « Coração denunciador » de Allan Poe, encanta-me como vinho bom. É simples e complexo, tudo ao mesmo tempo. Quando vi o peixe olhar a faca cravada na mesa, aguardando para ser usada no seu sacrifício em « Peixaria » nanquim sobre papel, fique anestesiada. Era a dor do dia a dia, o sofrimento do peixe, o sofrimento de todos nós aguardando pelo golpe da vida afugentar o sopro de vida. Este quadro é seguido por outro homônimo, entretanto a faca já está no pescoço do peixe.

« O que é preciso é criar, dar alguma coisa de si, usar a fantasia e a vontade criadora, para gravar sempre mais em profundidade. » Goeldi. Contemporâneo de Anita Malfatti, Goeldi entendia o drama da cor, principalmente a preta como Mark Rothko. A essencialidade de suas formas trazem um arrebatamento sutil a quem o observa. É quase como não ter um lar. Seus personagens são solitários, tanto quanto um peixe, tanto quanto um pescador, tanto quanto um ladrão em dia de chuva. É preciso ter alma para não morrer. É preciso ter luz para ver, é preciso ter força para enxergar na escuridão. É a imagem do vazio cheio de sentimentos como o momento decisivo de « O ladrão ». Em contraponto, a espera do mal certo, ali, na porta ao lado, temos « O mal ».

Goeldi demonstra sabedoria ao utilizar a cor, o vermelho, por exemplo. Este serve de ponto de atração, indicando a direção do olhar ; ilustrado nas gravuras « Cabeça » e « Rua ». As cores não são aleatórias e nem ornamentais. Fazem parte de um jogo semiológico perfeito entre conceito e linguagem.

Achei muito curioso os cometários serem em sua maioria, ou na totalidade, advindas de escritores e poetas, sua obra seria mais poesia que gravura, mais linguagem progressiva que permanente ?

« Um artista admirável. Das duas tendências principais da xilogravura moderna, a germânica e a anglo-saxônica. Oswald Goeldi segue resolutamente a primeira. Possui essa liberdade luxuosa do desenho em branco e preto, que pode ir da síntese mais rápida à análise mais amorosa. E traz da escola alemã moderna essa fineza de critério com que ela soube conservar na xilogravura contemporânea as qualidades vegetais desse processo de impressão, que do Barroco pra cá tinham sido abandonadas. » Mário de Andrade.

A gravura que mais gostei ? Certamente « Estrada », dirigiria por ela com um carro esporte vermelho, para não destoar da paisagem. Seria tão solitária quanto seus personagens, tão profunda quanto uma bacia de sangue.

Observação interessante : troquei duas palavras com Iara Tupinambá, artista plástica mineira que foi aluna de Goeldi. E sim, travei, fiquei congelada e não consegui perguntar nada. Deve ter sido o ar condicionado…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Anita Malfatti - 120 anos de nascimento


Domingo é o dia perfeito para fazer uma « grasse matinée », acordei quando meu corpo pediu. De qualquer forma não poderia ficar muito na cama, um dia cheio de aventuras estava pela frente. Fiz uma omelete breve, arrumei os cabelos e sai de casa com meu bolo de chocolate com banana na bolsa. Fazia 31˚ e todos iam e vinham da praia. E eu vestida com uniforme de museu : sapatos confortáveis, roupa fresca e echarpe (sempre está frio dentro das galerias), sem esquecer do pequeno caderno Cícero e da caneta preta BIC. Resolvi descobrir o que o CCBB poderia me oferecer neste domingo. Desci na estação Uruguaiana , não havia ninguém nas ruas, o centro da cidade do Rio de Janeiro é lindo, mas suas ruas guardam segredos e eu estava só. Resolvi, então, não andar pelas ruas estreitas e sim pela Rio Branco. Cheguei ao Centro Cultural sã e salva e pude desfrutar de duas lindas exposições.

Exposição : Anita Malfatti – 120 anos de nascimento
Curadoria : Luzia Portinari Greggio
Local : Centro Cultura Banco do Brasil – Rio de Janeiro
31 de julho a 26 de setembro de 2010


Chamou muito a minha atenção uma frase escrita pela curadora Luzia, « mulher sem fortuna e com uma grave deficiência física, numa cidade provinciana e com rígidas regras sociais. ». Ler isto modificou o meu olhar sobre aqueles quadros. O primeira quadro é « O Burrinho Correndo ». O burro parece voar ao invés de correr e as cores e proporções são exatas, tudo isso em um quadro de um palmo. Isto com apenas 10 anos de idade.
Tinha uma atrofia congênita no braço e na mão direita. Ainda bem que não era na esquerda, pois nela esta o lado criativo do cérebro.

O quadro « A Estudante » 1915-1916, óleo sobre tela, brinca com o rox o e o verde. O tom é suave e vivo. O engraçado é que apesar de seus trajes e fundo serem serenos, seu olhar está fixado ao longe e com olheiras. Sua feição é descontente, sua postura está curvada, talvez estivesse cansada de tanto ficar debruçada sobre livros.
Há uma provável influência de Vicent van Gogh em «Ventania » 1915/1917, óleo sobre tela. As pinceladas são circulares, seguindo o movimento do vento, como van Gogh fazia.

« Chanson de Montmartre » 1926, óleo sobre tela, este é delirante. Eu poderia ficar horas ali observando, espiando aquela moça na janela com seu gato de laço no pescoço. Dá para ver sua cama ao fundo, é uma cama de solteiro. Quem seria ela ? E a espera na janela, quem esperaria ?

Em contraponto a toda aquela sutileza, temos « A Chineza » 1921/1922, óleo sobre tela, que é permeado por um mistério. O vermelho Rothko do fundo puxa a atenção empurrando para o colo do espectador aquela chineza que indaga « C’est quoi ? » com uma certa indiferença.

Já em « Noivinho » 1925, óleo sobre tela, poderia dizer que « que gracinha de menino ! ». É um pequeno burguês francês, talvez, com cores de bala e violetas. É doce, é doce.
Em « Medalhão de Flores com borboletas » 1938, óleo sobre tela, eu pude ver um broche de tão encantador e formalmente resolvido e completo.

« Anêmonas », s.d., óleo sobre tela, este daria uma ótima estampa de vestido. « Retrato de Nonê (Oswald de Andrade Filho), 1935, óleo sobre tela, percebo uma clara referência ao estilo de Tarsila do Amaral pela forma de representar a folha e até mesmo as feições de Nonê.

As luzes levavam ao interior de cada um de nós a magia das obras de Anita, as cores nas paredes ajudaram a realçar a magia e até mesmo o cheiro que flutua por entre as pessoas fizeram desta exposição uma maravilha para os sentidos. Apenas não devo esquecer que domingo, não é dia de museu, está sempre muito cheio e alguns não entendem que o silêncio é respeito com a experiência dos outros. Para resolver isto : jazz em fones auriculares, eles vedam o barulho externo. Fica dica !

sábado, 31 de julho de 2010

Na minha inconstância, encontro uma lógica plausível.
Nas minhas memórias, encontros e desencontros.
Apenas preciso saber o que sinto e o que não quero mais sentir.
São por estes motivos que trilho este caminho.
Onde estarei quando terminar a última folha?
Na verdade, posso deixar páginas em branco como deixarei linhas em branco.
Nunca estarei completa como os meus cadernos.
Só me importam o começo e o meio.
O final, eu deixo para vocês.

domingo, 27 de junho de 2010

Fiat modus!


Quais são os parâmetros que devemos adotar ? Será errado o encantamento e mudança drástica de foco ? Desde bem pequena eu desejava criar, eu apenas não sabia qual seria a minha porta, a minha faca, o meu suporte. Deparei-me com várias portas, algumas abri como a da fotografia, outras espiei como a da filosofia, e outras observei como a da gastronomia. Cortei pápeis, livros e queijos. Usei câmeras, canetas e panelas. Flutuei contente, viajei para vários lugares. Eu estava tentando encontrar uma resposta. Perguntei à torre Eifel, à estátua da Liberdade, aos quadros do Rothko, e até ao Gaudí. Não puderam dizer-me nada. A resposta estava ardendo em meu coração. Mas como falo tanto, debato-me tanto, reclamo tanto, não pude ouvir. Agora fiquei quieta, deixei minhas palavras serem absorvidas pela minha carne. Abri apenas os ouvidos internos. E pude escutar claramente, foi ali, através de um e-mail amigo. E assim, entendi, aceitei e respondi. Digo sim, definitivamente digo sim. Não fugirei do que sempre fui e do que continuo sendo. C’est la mode, c’est ma vie, c’était toujours ma vie. C’est chez moi. C’est dans moi. Fiat modus !