quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O homem sem braços
O homem chegueu perto do lixo e começou a tocá-lo com os pés. Procurava, tentava defender sua família. E continuava a chutar os sacos pretos de lixo. Tomei mais um trago. Colocou sua cabeça dentro da caçamba, era esperançoso. Queria comer, queria vestir-se, o que queria? Era amargurante. E o bebê ali. Que futuro tinha? O que significaria futuro para ele? É uma palavra para poucos. É inexistente para muitos. E eu estava tao feliz com minha mochila nova. Ela era toda colorida, cheia de flores.
Que flores haviam na vida daquele homem? E mais uma pessoa havia sido colocada no mundo. Era injusto, era o habitual. Passavam pessoas e nem olhavam. Elas, simplesmente, escolhiam nao ver. E seguiam satisfeitas.
Eu estava alta naquela varanda bonita de um albergue espanhol. Eu nao estava só. Sim, eles estavam sós. Estavam separados de toda beleza do mundo. Estavam a parte. E tinham que preocupar-se a cada segundo, a cada passo.
E a família foi embora. E o homem seguiu, sem braços, nem nada encontrar e sem nada esperar dos dias. Seriam secos como o de hoje, como o de ontem e como o de amanha. E eu seguiria contente, todavia, só até aquele momento. Nao direi mentira. Depois do banho, já terei esquecido a cena e farei parte de todo o resto que escolhe nao ver. Escolhemos nao ver, nao saber. Mas eles estao ali.
Um jovem bonito atravessou a rua e jogou um colchao aparentemente novo perto do lixo. Ele nao precisava daquilo. Devia ter outro melhor em casa.
Terminei meu cigarro, tomei o último gole de Contreau. Entrei no quarto e fechei a porta da varanda. Ela era pesada como a realidade do homem sem braços. Entao, virei as costas para o que tinha visto. E sentia-me culpada por ter comprado a mochila nova. E todos seguem, eu seguirei, e eles também.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Hors ligne: Deuxième
Os sentimentos são melhores quando não são escritos. Depois de escritos viram particula podre, é como me sinto em relação a tudo agora. É quando um gato, de repente te arranha, e te morde. Não é doce. Mas é a realidade tocando com rispidez o meu corpo frágil.
Sinto-me ansiosa e derradeira. Sou derradeira. Não tome muitas intimidades com um gato, pode acabar sendo fatal. Eles são originais, não fingem que não mentem. Enganar, suprimir, frojar, pretender, iludir, mostrar os dentes e as garras crueis. E ao mesmo tempo, distilar um doce olhar verde, ou talvez azul.
O ronronar é macio, cuidado, não fique muito relaxada. Acorde, acorde deste sonho infantil. Ele pode te arranhar de novo. Ouça, ele quase pára de ronronar. Vai acordar a casa inteira. O relógio está berrando para eu dormir. Amanhã tem aula, você precisa dormir. Não pode falta de novo, e o tempo urge. Não era assim que mamãe falava?
Sim, apague a luz. Eu vejo o que está fazendo. Você está indo a direção alguma. Está estremecendo e iludindo-se cada vez mais. É necessário, preciso deste drama, preciso desta dor. A melancolia me fortalece, a cerveja também. No fundo, não é nem drama. É apenas uma vontade de me entregar aos fracassados, aos alienados, aos descontentes, aos frustrados.
Quem diria? Aquela meninha de roupa de quadrinha, meia-calça cortada cheia de cola colorida. Saia de seda e nos pézinhos, um sapatinho boneca. Era verdadeiramente, uma bonequinha.
Eu sou, e não me vejo assim. Eu indico sensações, eu provoco argumentos, eu sou uma desilusão. Foi só para rimar, não sou isso, não.
Quero que o papel acabe, preciso dormir. Não durmo enquanto o papel não acaba.
“Caramels, bonbons et chocolats
Par moments, je ne te comprends pas...
Parole, parole, parole…”
E é a vida por detrás das cortinas, está na hora de abri-las. Preciso ver novamente o sol, preciso verdadeiramente ver o sol.
Segundo dia
“De nada adianta ficar-se de fora
A hora do sim é um descuido do não”
Toquinho e Vinicius de Moraes
Acordei cedo, vesti-me bem bonita. Preparei-me para sentir o frio de Paris. Resolvi ir a Champs-elysees para ver as lojas, descobri o charme do lugar. Eu só queria achar a Orange, eu queria poder falar com aquele erro misterioso, aquele sujeito diferente, intrigante. Quem era ele? O que queria de mim? Eu andava alegre, satisfeita. Acordara e fizera uma maquiagem simples e charmosa. O que poderia eu dizer? Eu estava desejosa.
Fui à pé da Rue de Mouffetard até a Rue de Rivoli. Meus dedos doiam de frio e eu não podia segurar minha Nikon D40. Era impossível regular a velocidade, era impossivel pensar em enquadramento. Seguia fotografando com meus olhos. Algumas pessoas corriam, outras turistavam alegres. Vejam, estamos em Paris. Sim, é dificil misturar-se, mas impossivel não é uma palavra francesa.
Subi a Champs-Élysées. Ela não é a Paris que amo. A Paris de ruas estreitas, a Paris de pouca gente, de gente engraçada, de casais de verão, de caras amarradas e de sorrissos largos. Aquela era um Paris de todos, e muito pouco dos franceses, dos “parisien de souche”, uma bendita escassez.
Minha calcinha encomodava muito. Era dificil de alcançá-la, eu portava a calcinha, uma cirola, uma calça jeans, vários casacos, luvas de couro. Sentei para disfarçar e tirar aquela bendita de minha bunda. Foi quando vi um belo garoto de mais belos ainda olhos azuis a pegar um grande anel de ouro no chão. Então, ele perguntou-me se era meu. Truque antigo. Se meu francês fosse melhor, eu lhe perguntaria se ele não havia aprendido nada mais novo, pois aquele era da época de Doisneau, aproximadamente.
Levantei-me preocupada e disse que era casada. Casamento está em sua cabeça. E está sempre na minha. Sempre. Vivo a pensar no casório, penso tanto que assusto os homens, quero tanto e quando alguém quer, eu fujo assustada. Uma coisa é querer, outra coisa é acontecer. Quero casar, outra é casar. Quero morrer, outra é morrer. Quero amar, outra é amar. É a alma humana, não sabemos nem mesmo o que queremos. É uma passado cruel, é um futuro devaneado.
Entrei feliz na Orange naquela rua larga. Comprei um chip da França. Eu agora tinha um número, um código. Eu existia neste país, eu estava aqui de verdade. Mandei uma mensagem a Alexis.
“Bonjour! C’est Ana. J’ai acheté un sim card. Maintenant nous pouvons parler. Bises.”
Eu andava sorrindo, saltitava de frio e emoção. Fotografava furtivamente as fachadas, as pessoas. Queria que tudo entrasse em minha alma. Foi quando avistei uma fachada verde, antiga, clássica, do segundo império, delicados ornamentos, curvas, tão napoleônico quanto os móveis da casa de vocó Judith.
Lembro da pentiadeira. Sentava no banco, os pézinhos não encostavam no chão. Imagina a mulher não existente ainda na minha face, enxergava os perfumes que teria, os pós-de-arroz, os batons e também as lágrimas que um dia derramaria pelos amores impossíveis.
Coloquei meus dedos no puxador gelado, e abri a porta como quem abre uma caixinha de música que fora da avó ja morta. Era uma caixa sagrada, imaculada e cara. Entrei e não me senti completamente estranha, estava relaxada, à vontade, em casa. Postei-me na fila. As pequenas tortinhas sortidas de cores vivas e pastéis sorriam e se divertiam. Estavam dispostas com sabedoria e beleza. Avançava na fila e havia uma senhora atrás de mim. Era requintada, elegante, tão francesa. Ela já sabia o que queria. As pessoas pediam rápido, todos já sabiam. Eu estava perdida. Não sabia o que era bom.
- Tudo é bom – disse a senhora tão delicadamente como os pais que iniciam o paladar dos filhos com queijinhos Babybel, a suavidade materna e preocupada.
Então, vi os macarrons. Li em voz alta o nome de quadro dos sabores, e em dois segundos lá estava eu pagando pelo meu prêmio. Estavam em minhas mãos em um saquinho delicado e de design “arte nouveau”.
Despedi-me do lugar e sabia não ser aquela a última vez. Quando senti o ar frio em meu narizinho, senti também o celular vibra em meu corpo. Subiu-me um arrepio delirante, quase uma zonzeira mas, sádia.
A voz era tão estranha, não havia o costume de ouvi-la. Era a voz com sotaque rascante de Alexis, um inglês afrancesado. Entendi só metade do que disse. Entretanto, ouvi apenas que ligaria novamente mais tarde, às 18 horas.
Continuei andando, entrei na Shephora. A Champs inteira estava em promoção. Passei meus dedos por algumas sombras de um euro cada. Ah, o prazer feminio pode sim custar barato. A fila do caixa é sempre a hora do arrependimento e frustação. Sempre sinto-me como se fizesse algo errado. As vezes, não. E na verdade nunca precisamos do que compramos. Entretanto, a pura verdade é que nossas vidas dependem completamente dessas pequenas coisas.
Homens gostam de mulheres sensuais, homens gostom de nos cheirar, homens gostam do toque suave da seda do vestido, homens gostam da renda branca sobre a pele morena, homem gostam de cabelos sedosos e bem tratados.
E sim, nós gostamos de carros caros, de ternos bem cortados, de cartão de crédito com limite ilimitado. O mundo é vulgar e malicioso, e eu, preciso ser mais e mais. Ou não.
Cartão aceito, conta paga. Lá estava eu na rua novamente com um pequenos saquinhos da Ladurée e outra da Shephora e ainda outro da Orange. E para ser sincera, não estava feliz. Não gosto de Paris no inverno. Eu gosto da liberdade de minha blusinha pequena, dos meus dedos livres e quentes. Eu não me sentia livre.
Sentei em um banco, abri delicadamente o saquinho e degustei os pequeninos macarons. São bons, sim, são bons. E não são a melhor coisa do mundo. “Ça m’enerve”.
Marchei até o albergue. Quando estava quase na porta, Alexis me telefonou e me convidou para encontrà-lo em um café chamado Le Fumoir. Entrei correndo no alberque, subi tropeçando nos degraus da escada estreita. Entrei no meu quarto já tirando os casacos, pequei tudo que precisa e voei para o banheiro. Foi um banho rápido, porém para mim era uma eternidade. Eu queria chegar logo ao encontro, queria saber, queria descobrir.
Vesti-me, fiz maquiagem e fui. Entrei na estação de metro da Place Monge, e havia muitas pessoas. Todos corriam para um lado e para o outro, eu não sabia como chegar ao café, ficava nervosa com medo de chegar lá e ele não estar mais. Medo, medo, medo, angustia, frisson, e mais medo.
Cheguei ao lugar e fui recepcionada por um japonês ou chinês ou sei lá o que. E fui bem mal tratada. Então ele me viu, e veio ao meu encontro. Não gostei muito do que vi. Não poderia dizer que era absurdamente bonito, era simpático, talvez. E ele não estava com vários amigos, era uma moça. Ela era bela, cabelos escuros, uma boca larga com dentes grandes, olhos pouco encantadores, desajeitados e infantis. Sim, muito bela. E eu não gostei. Talvez eu preferisse estar somente com ela. Virginie. Sim, era Virginie.
Eu timidamente começava a falar. Eu não sabia a pauta, o romance, e qual livro, quem eu deveria ser ali, sim, eu não sabia de nada. Arriscava minha vida, arriscava meu pescoço e minha inocência, sim, tudo em um mesmo segundo.
Falamos sobre nada um bom tempo. E contei como havia conhecido Alexis. Foi quando aconteceu o apelido: puppy. Ele havia chegado à minha pequena mesa e se abaixado para falar comigo, e reposou somente a ponta dos dedos sobre a madeira plana. Sim, era um cachorrinho, um puppy.
Falávamos sobre música. Então cantei:
“Quand il me prend dans ses bras
et me parle tout bas
je vois la vie en rose…”
E naquele momento, nascia nossa música. Nem haviamos nos beijado, e já tinhamos apelidos e música. Era irresistivel. Era ultrajante. Era massificador e impossivel de imaginar. Eu estava fora de mim, não era eu. Não havia nada nos olhos de Virginie, eu não percebia nada. Era inutil tentar, ela era seca pode dentro.
E em três segundos, ele olhou fundo nos olhos dela, dentro daquela Virginie que só ele conhecia, ou talvez apenas pensasse conhecer, passou as mãos ao redor de minha cintura e prendeu-me um beijos atrapalhada. Ele não me beijava, ele mostrava a ela o troféu, eu era um tapa de luva de pelica. Mas eu sabia da existência nula de qualquer sentimentos dentro dela. Era como pedra jogada em lago seco, vazio. Era chuva ácida em panela de inox. Ele precisava dizer para si mesmo: eu posso, eu sou capaz, eu sou mais que ela.
Ele não é.
Eu vi, eu percebi. Então por que não me levantei e fui embora. Por que não me disse: Chegaaaaaaaaaaaaaaaaa! e parti? Pois gosto da emenda, gosto desse reggaeton forçado. Sim, permaneci lá e fiz, com prazer, o papel exigido por ele dentro do teatrinho. Eu era um fantoche vistoso e corajoso. Quase uma boneca de louça ou porcelana. Eu iria quebrar, eu deveria ter quebrado. Todavia, se eu quebrar não há livro, não há vida, não há emoção. Nem para mim, nem para vocês. Continuemos.
Após alguns beijos destrambelhados e com pouco prazer, ela decidiu ir embora. E foi. Assim, bem de repente.
Resolvemos jantar ali mesmo. Comemos um delicioso risoto de trufas com vinho tinto. Ele beijava-me, segurava minhas mãos e ali, eu pensei que seria para sempre. Era claro e confortável. O perigo é não sentir o perigo.
Ele propos uma casa de jazz depois do jantar. Então fomos ao Duc de Lombard. A música era incrível, ele não era incrivel. Beijava meu pescoço com voracidade, e tentava viajar sua mão sobre meu corpo por baixo da roupa. Eu tirava, ele retornava. Eu tirava, ele retornava.
O lugar era azul, era tudo azul. Até eu estava azul, por dentro também. Ele pediu duas taças de vinho. Bebi bem devagar, degustei, ouvia a música e pensava o que fazia ali. Era delicioso o jeito que ele encostava os lábios no meu pescoço. Era quente e macio. Suas mãos faziam massagem nos meus ombros e até minha alma relaxava. Eu queria sair correndo dali e fazer amor com ele, transar com ele, trepar. Fiquei ali, parada e calma. Vontadade dá e passa.
Queria ir embora, outra coisa era ir embora. Eu estava presa ali, grudada e completamente costurada àquele homem de casaco de couro curto e feio, barba por fazer, e pouco cabelo. Sua linguá era especial. E ele me fez sentir especial.
E então, o show acabou. Hora de ir embora. Levantamos e fomos. Entramos na estação de metro, descemos apressados as escadas e em poucos minutos lá estava eu novamente na frente do albergue. Beijamos-nos mais e mais e mais e mais. Ele despediu-se e foi embora. Entrei, subi, deitei-me e não vi nada. Eu não estava ali, era imagético, era sonho, era nada.
domingo, 7 de fevereiro de 2010
Hors ligne première
Fumo um cigarro de chocolate. Encosto minha cabeça no “clic-clac”, estendo meu corpo no tapete macio, felpudo e negro. Olho para cima e vejo a fumaça doce de meu cigarro acesso. Ela dança para mim, ela me ensina, ela diz o que eu não quero ouvir. É a sensação mágica da vontade mórbida da morte eterna, é a vida, é a mistura. De qualquer forma, me conservo honesta, me conservo ambiental. Invento situações pois não aquento a realidade seca, as imagens reais. Choca-me, tudo. Eu disse: posso sair um pouco. Responderam: não, você precisa saber a verdade. Diga então, eu quero saber. Se é que existe alguma forma verdadeira de expressar atos impuros, pensamentos imperfeitos e ações que queria tanto tomar, mas a realidade avassaladora toma conta de meus atos e não posso me mexer.
O gato sobe na cama, e procura um lugar para se deitar. Olha a luz do computador e nem presta atenção. Ele prefere a sensação de meu pequenino casaco de lã. Ou talvez a cama do “clic-clac”.
Não, não é normal. Meu corpo pede tanto o corpo dele. Entrando e saindo de meu corpinho imaturo, maduro, perfeito, cruo e nu. Entretanto, dentro, é vazio e agradecido. A liberdade entrou novamente pelas minhas narinas e não preciso mais daquele cheiro, e nem daqueles beijos tão falsos, tão derradeiros e que não forma eternos nem mesmo por alguns segundos.
O cigarro de chocolate não faz bem para meu estomago, fico enjoada, como fiquei com tanto excesso de ilusão. Que ilusões puras, que amor contente, que momentos bons e que fim sem graça.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Rue de Mouffetard
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Primeiro dia
“Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor”
Cazuza
Primeiro dia
Eramos vinte e uma pessoas. Sim, eu estava em um intercambio. Era mais um inicio, mais pensamentos e promessas. Talvez eu nem voltasse para o Brasil. Dependia de mim, dependia de minha vontade e do fogo que ardesse em meu pequenino coração. Seguia distante do resto do grupo. Entramos no ônibus que me levaria ao albergue, e os outros iriam para outro lugar.
Pela janela grande do ônibus, fui reconhecendo os lugares nos quais já havia estado. Pude ver a Sacre-coeur, a Torre Eiffel, passamos pelas Champs-elyses. Meu coração palpitava, sim, eu estava em casa. Nasci para estar aqui. Eu sou um gato preto e branco. Observo e pertenço. Pertenço aos lugares nos quais já estive. Passeio entre as pessoas e faço parte daquela história. Estava em Paris novamente para fazer parte da minha própria história. Meu Deus, proteja-me de mim mesma, pois meu coração arde, meu olhos ofuscam o brilho eterno de minha paz.
Esta é uma história de amor, e como toda história de amor verdadeiro, há início, meio e fim. Eu só preciso encontrar um alma igual à minha, não preciso segurá-la para sempre junto a mim. A fúria destriu a ilusão.
Abrindo e fechando a geladeira, eu perco o sono, me reviro na cama. São multiplos os sentimentos. Escolherei um e seguirei resignada por entre as ruas, mirando as pessoas nos olhos sem saber qual será o próximo passo.
Vê-lo não é mais tão bacana quanto na semana passada. Tudo se passou comme ça. E o futuro representa uma ameaça a resistência sadia de tal amor. A vida transforma as pessoas, e meu futuro e minhas esperanças sempre assustam os homens. Uma mulher com várias opções é uma mulher bem inconstante.
Tomei um banho demorado na ducha de tempo rápido, segurava com meus pés o botão da ducha. Equilibrava com o sabão na mão, a outra pelo corpo. A agua lavava o que sobrou do Brasil, vazia esvair-se, esvaziava devagar, sortia, saltitava. Preenchia meu corpo com agua de canos antigos, agua de Paris. Em minutos estava metade americana, metade francesa e dentro sempre brasileira.
Quando o encontrei no Margen’s na Rue Mouffetard, eu não tinha a menor idéia do que poderia acontecer. Nós nunca temos. Subi e desci a rua mil vezes e não sabia onde entrar. Passei na frente de um restaurante chamado Le Piano Muet e aceitava o meu cartão de crédito. Entrei. Seria meu primeiro contato com a lingua desde minha chegada. Pacientemente pedi fondue de queijo e vinho da casa.
Degustei devagar. Senti o queijo escorrer pela minha garganta e escrevi no meu pequeno caderno:
“É minha segunda vez em Paris. Penso que desta vez será diferente.”
E depois observei a garçonete negra, peitos rigidos, pernas longas, arrumava com perfeição a mesa onde estava um casal. Eles mal se falavam, e não pareciam felizes. A negra veste tennis Adidas vermelho. Rebola entre as mesas com olhos baixos. Le fromage est brulé. As paredes são de pedra e o teto de madeira. Há um segundo andar, talvez uma casa. Esta rua é incrivel e eu gostaria de desenhar todos que estão ao meu redor. Um senhor, deve ser o dono, fica parado observando tudo. E às vezes me olha com carinho. Eu escutava, as pessoas falavam em francês, inglês. “Estou rodeada, hoje não queria estar sozinha, tenho prequiça até de lutar. Não existe mesa para um, sempre sobra um lugar. Vou sair agora relaxada em busca de um amor. Amo amar. Amo a vida. Le bonher plus qu’hier et moins que demain.” E este é o problema de desejar algo, pode tornar-se realidade. E eu nunca sei como lidar com ela. Ela é apavorante e muito presente, preciso de algo que me tire completamente da realidade. Pisquei os olhos e estou em Paris, pisco de novo e não estarei mais aqui.
Entrei em um bar chamado Margen’s na mesma rua. Na verdade não entrei, fiquei na porta olhando, sentindo o ambiente. Havia muitos homens, era um jogo de futebol e eu não sabia o que fazer, se entrava, se não entrava. Subi e desci a rue de mouffetard mais algums vezes. Voltei ao alberque e só então entrei resignada. Pedi uma cerveja grande, olhei em volta, todos miravam somente à televisão. Homens e futebol, em todos os lugares do mundo é a mesma coisa, não existimos perto do grande jogo. E o jogo era Bordeaux e Marseille.. Todos felizes e dois tristes, dois ou três. Minha caneta estava morta e eu pedi uma a garçonete.
Fiquei ali, fingindo interesse, fingindo que desenhava, fingindo que não procurava nada. Na verdade eu esperava uma nova história, eu vivo de histórias, não sei o que gosto de fazer, sei que gosto de viver. E o que farei com todas elas após terem acabado? Colocarei todas em uma gaveta confortavelmente para descansarem em paz na solidão escura de madeiras planas.
Olhei para a televisão. Havia um homem, era um pouco belo. Não sei, as imagens se confudem depois de um tempo, e agora eu o acho muito belo. Talvez não agora, depois de tudo que aconteceu. A vida pode se tornar dificil se não prestarmos atenção, e eu sempre a torno mais triste sem razão alguma. Todavia, eu estava ali, sozinha. E ele começou a me olhar profundo, dentro de uma pessoa que eu inventaria para ele. Eu disfarcei e olhei para a televisão. Ele escondeu-se atrás de um homem. Mas depois de alguns minutos, voltou a curvar seu corpo e pude vê-lo novamente.
E ficamos nesses olhares por uns vinte minutos, até que ele levantou-se e veio até minha mesa. Abaixou-se e colocou suas pequenas mãos delicadamente sobre a mesa, na verdade foram só as pontas dos dedos. Ele tinha olhos verdes, mais verdes que os meus. Não tinha muito cabelo, mas tinha barba grossa. Não era alto, não era baixo. Seus dentes não eram perfeitos como de um brasileiro ou como de um americano. Eram dentes de francês. Observei, observei. Tudo em 3 segundos.
Ele começou a falar em francês e eu pedi que falasse em inglês. E ele me convidou para sentar com ele. Juntei meus casacos, minhas tralhas, minhas virtudes, minhas esperanças e fui envergonhada e satisfeita sentar junto daquele estranho. Sentia-me como um prêmio premiado. Eu era a única mulher ali, e ele havia sido o mais rápido. Nem sempre o mais rápido é o melhor. Entretanto quando se tem olhos verdes e 22 anos é fácil ser alvo dos mais experientes. Eles sabem o que é bom. Aproximam-se com virtudes falsas, e normalmente conseguem enganar-me com maestria. Talvez eu goste de ser enganada. Gosto da mágica, pena que seja sempre falsa. O anel que tu me deste, era vidro e se quebrou. Gosto do intenso e do rápido, rezo por um amor, e me desfaço em lágrimas sempre que precinto o fim. Não consigo segurar o amor. Escorre pelos meus dedos finos e débeis. Vira pó, vira liquido, torna-se ar. Eu não consegui olhá-lo, não conseguia entender o que ele falava. O jogo corria, as pessoas falavam alto, minha cerveja ia se acabando e ele tentava e conseguia passar a mão em minhas cochas grossas e sádias. Cochas de negra mas de pele branca, pernas que malham muito, que descansam muito, que vivem bem. Eu empurrei sua mão, e ele seguia dizendo que gostava muito de tocar as pessoas, talvez uma alma brasileira. Se um homem brasileiro toca desta forma no Brasil, não é bom. Se o faz aqui, pior. Então qual a explicação, ou desculpa, por assim dizer, darei a minha mesma de tê-lo procurado no dia seguinte.
Acontece que mulheres são apaixonáveis, mas somos apaixonadas. E eu, bem, eu tenho 22 anos e bastante experiência que a cada nova relação se zera e eu não sei o que fazer. Sou crua sempre, singela, uma cabeça de tigela, uma amostra de vidro. Pego-me de surpresa repetindo os erros e caindo de amor em dois dias.
Depois que meus pais se separaram, minha mãe teve vários relacionamentos frustrados. Muito amores acabaram mal, se é que foram amores. Meu pai casou um vez até agora, mas morou com várias. Em um mês já estava metido no apartamento daquelas mulheres desconhecidas. Sou fruto do vosso ventre, minha mãe. Sou parte de sua carne, meu pai. Sigo amanando, e amo seguindo, pois sem ele minha alma seca como fruta no sertão, como agua na chapa quente. Sou derradeira.
Acabou minha cerveja, acabou o jogo. Eu não sabia se estava me divertindo com ele. Era um estado de demência completa, sem saber o que falar, sem saber o que pensar e sem saber se era bom ou não. Ele levantou correndo, o jogo havia acabado. Mas por que tanta pressa? Sim ,as pessoas saiam, ele saia na frente como que assustado, corre de algo, talvez fuja de sua própria sombra. O que será que esconde? Preciso desvendar.
Fui resignada atrás dele. Sou mulher, sigo o homem.
Meu albergue é bem na frente, ele me segurou e deu-me um beijo na face direita e foi embora, assim, bem de repente, da mesma forma como saiu apavorado do bar onde nos conhecemos. Tão rápido quanto nos conhecemos, tão rápido como nos envolveríamos. Tão rápido como acabaria.
Eu estava em estado de choque. Pedi para conhecer alguém, e sim, conheci alguém. E esse alguém seria diferente? Teria carinho? Teria amor? Teria paciência? O amor é sorte, é merecimento, ou não. Mas de qualquer forma, talvez não seja algo para mim. Somente para os outros, para os outros que passam lá fora, para os outros que vejo da janela. A realidade encantada que para mim é sempre diferente. Vai e volta e estou só. Volta e vai e não sei para onde ir. Fazia frio em Paris, e eu precisava aquecer-me. Então por que não um alguém, mesmo que fosse, qualquer alguém, para acender um pouquinho do que havia se apagado desde Andreifi? Era só esperar, e tomar alguma atitude. Quero, digo e espero. A vida me mostra o caminho, e eu sigo em frente.
Subi as escadas estreitas para o meu quarto. Eram 3 beliches. Quarto misto, haviam homens e mulheres de vários lugares do mundo. Eu amo a diversidade, eu amo o encontro, eu amo a variedade.
Arrumei minha cama, abri meu saco de dormir. Escovei os dentes, coloquei o pijama. Então, entrei confortavelmente em meu saco quente. Sentia-me como um lagarta que se prepara para virar borboleta. Amanhã acordarei para voar, abrirei meus grandes olhos verdes e verei o mundo de cima.
Tolices, mandei um e-mail para Alexis. Escrevi assim:
“Hi...
it's Ana
the brazilian girl from the bar...
I really liked to know you...
I hope we can meet again...
Bises”
E é assim que o erro começa. É boa a vida solta pelo mundo, é boa a vida inconstante. Dormi prequiçosa, cheia de vontade, preparava-me para voar alto e a velocidades rápidas, sentir o vento gelado na face e não descansar jamais.